Editorial (Fevereiro 2019)

“Usem-nos como cobaias”. Pode ser que o pensamento tenha sido mais rápido que a consciência sobre o que iria dizer… Pode ser. Todavia, o registo está aí (ver no Blog secção Vão-de-escada). E a actual secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, não se libertará mais das palavras dirigidas aos representantes da ALIBABA, grupo chinês conhecido particularmente pelo designado “e-commerce” e tecnologia de inteligência artificial.

Deslizes destes, porém, são significativos, particularmente quando consumados pelo membro de um governo, no caso do nosso país. Até porque o que está em causa é a entrada em Portugal de um empresário que ainda não especificou, de modo assertivo, ao que vem: que tipo de investimento e de modelo de empresa (ou empresas) pretende instalar, aqui, no extremo atlântico da Europa.

É por aqui que seguimos, neste segundo número de Dissonâncias: pela dignidade e pela indignação – porque esta só ganha sentido com a assunção da primeira, no quadro dos Direitos Humanos, nossa referência fundante e, portanto, inalianável neste projecto de cidadania.

Quando a dignidade começa a escassear, mesmo que de modo irrresponsavelmente repentino como parece ter sido o da secretária de Estado do Turismo, o mínimo que podemos esperar é o abuso, o desrespeito e a inoperância, no exercício da administração pública; por parte dos eleitos pelos cidadãos, em nome da Liberdade e da Verdade constitucionais, assim como no âmbito do relacionamento das diferentes entidades políticas, sociais e empresariais com as populações…

É aqui, nestes momentos de sombra, que a dignidade deve ser exigida, e a indignação cultivada, enquanto intervenção pública e sinal integrador de uma decisão democrática, e que por ser isso mesmo, não deverá admitir assobios para o ar

Por muito difícil que seja cumprir as obrigações que exige um crédito pedido à Caixa Geral de Depósitos, a verdade é que as cidadãs e os cidadãos não podem ignorar o seu direito à indignação: aquele banco nacional desbarata o dinheiro dos contribuintes, diante do assédio dos senhores do dinheiro… E isto é indignante na gestão de um banco nacional. Como também não é admissível permanecer em silêncio, quando o primeiro-ministro da nação se permite o exercício de permanecer calado quando um elemento do seu governo nos toma por cobaias de um governante despótico e intolerante,  ou de empresários desrespeitadores dos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O alerta lançado na secção Terceiro Planeta, a propósito dos contaminantes que inconscientemente ainda lançamos sobre o planeta, e mais particularmente no Mar, convoca a nossa indignação a assumir atitudes de dignidade. Exercitar as propostas que são feitas pode conferir mais gosto pelo nosso quotidiano, não permitindo, assim, que ele se torne no deserto em que os diferentes sistemas querem transformá-lo.

E por tudo isto, aqui há lugar a uma atenção especial pelo Homem que plantava árvores… A sabedoria da indignação conduziu-o a um gesto sublime de dignificação, do ser humano e do planeta. Será bom seguir-lhe o exemplo, para que não sejamos transformados em cobaias.

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