Hannah Arendt

Bondade e Sabedoria devem ser Inocentes

“Quando a bondade se mostra abertamente já não é bondade, embora possa ainda ser útil como caridade organizada ou como acto de solidariedade. Daí: «Não dês as tuas esmolas diante dos homens, para seres visto por eles». A bondade só pode existir quando não é percebida, nem mesmo por aquele que a faz; quem quer que se veja a si mesmo no acto de fazer uma boa obra deixa de ser bom; será, no máximo, um membro útil da sociedade ou zeloso membro de uma igreja. Daí: «Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita.» (…) O amor à sabedoria e o amor à bondade, que se resolvem nas actividades de filosofar e de praticar boas acções, têm em comum o facto de que cessam imediatamente – cancelam-se, por assim dizer – sempre que se presume que o homem pode ser sábio ou ser bom. Sempre houve tentativas de dar vida ao que jamais pode sobreviver ao momento fugaz do próprio acto, e todas elas levaram ao absurdo.”  (Hannah Arendt, in “A Condição Humana”)

Escravo de Si Mesmo

“A suposição de que a identidade de uma pessoa transcende, em grandeza e importância, tudo o que ela possa fazer ou produzir é um elemento indispensável da dignidade humana. (…) Só os vulgares consentirão em atribuir a sua dignidade ao que fizeram; em virtude dessa condescendência serão «escravos e prisioneiros» das suas próprias faculdades e descobrirão, caso lhes reste algo mais que mera vaidade, que ser escravo e prisioneiro de si mesmo é tão ou mais amargo e humilhante que ser escravo de outrem.” (Hannah Arendt, in “A Condição Humana”)

Banalidade do mal

“O problema, no caso de Eichmann, era que havia muitos como ele, e que estes muitos não eram nem perversos nem sádicos, pois eram, e ainda são terrivelmente normais, assustadoramente normais. Do ponto de vista das nossas instituições e dos nossos valores morais, esta normalidade é muito mais aterradora do que todas as atrocidades juntas, pois ele implica (como foi dito inúmeras vezes em Nuremberga pelos réus e pelos seus advogados) que este novo tipo de criminoso, sendo, na realidade, um hostis humani generis, comete os seus crimes em circunstâncias tais que lhe tornam impossível saber ou sentir que está a agir erradamente.” (Hannah Arendt, in “Eichmann em Jerusalém. Uma Reportagem sobre a Banalidade do Mal”)

Apenas o bem pode ser radical

“Tenho hoje, com efeito, a opinião de que o mal nunca é ‘radical’, que ele é apenas extremo e que não possui nem profundidade, nem qualquer dimensão demoníaca. Ele pode invadir tudo e assolar o mundo inteiro precisamente porque se espalha como um fungo. Ele ‘desafia o pensamento’ como disse, porque o pensamento tenta alcançar a profundidade, ir à raiz das coisas, e no momento em que se ocupa do mal sai frustrado porque nada encontra. Nisto consiste a sua ‘banalidade’. Apenas o bem tem profundidade e pode ser radical.” (Hannah Arendt, in “Eichmann em Jerusalém. Uma Reportagem sobre a Banalidade do Mal”)

Sobre Hannah Arendt, uma das mais influentes filósofas políticas do século XX, cujo trabalho filosófico abarca temas como a política, a autoridade, o totalitarismo, a educação, a condição laboral, a violência e a condição feminina.

Hannah Arendt (1906-1975) nasceu em Hannover, Alemanha, no dia 14 de outubro de 1906, no seio de uma família judia.

Em 1924 ingressou na Universidade de Marburg. Em 1928 doutorou-se em Filosofia na Universidade de Heidelberg, com a tese “O Conceito de Amor em Santo Agostinho”.

Em 1929, Arendt ganhou uma bolsa de estudos e mudou-se para Berlim. Em 1933, com a subida ao poder do Nazismo, Arendt torna-se activista da causa judaica. Nesse mesmo ano, foi presa pela Gestapo e depois de passar oito dias na prisão, resolveu deixar seu país natal.

Hannah Arendt passou por Praga e Genebra, até chegar a Paris, onde permaneceu durante seis anos trabalhando com crianças judias expatriadas. Após a invasão alemã da França é internada num campo de concentração no Sul do país. Consegue fugir e, no caminho para o exílio nos EUA, permanece alguns meses em Lisboa como refugiada.

Em 1941 conseguiu chegar aos Estados Unidos, onde fixará residência, naturalizando-se americana dez anos depois.

Duas das obras fundamentais à compreensão do século XX no plano filosófico e político são da sua autoria: “Origens do Totalitarismo” (1951) e “Eichmann em Jerusalém” (1963). Na primeira, dividida em três partes: “Antissemitismo”, “Imperialismo” e “Totalitarismo”, analisa o modo como se forjou na Europa uma verdadeira máquina de destruição, capaz de levar ao horror do holocausto. Na segunda, resultante de uma série de artigos publicados na revista New Yorker, os quais cobrem o julgamento em Jerusalém do criminoso de guerra nazi Adolf Eichmann, Hannah fala da “banalidade do mal”.

Em 1963, começa a leccionar na Universidade de Chicago, onde permanece durante quatro anos. Nesse ano (1967) muda-se para Nova Iorque, onde é contratada pela New School for Social Research, até 1975. A sua última obra, “A Vida do Espírito”, foi publicada após sua morte, ocorrida a  4 de Dezembro de 1975, em Nova Iorque.

(Fonte: https://www.ebiografia.com/hannah_arendt/)

Filme biográfico: Hannah Arendt (2013) dirigido por Margarethe von Trotta, EUA.

Trailer: http://youtu.be/qeGg-ZwkCTA

Curiosidade

Quando chegou a Lisboa, em Janeiro de 1941, Hannah Arendt, já tinha sido brevemente presa pelos nazis em 1933, era refugiada desde os 27 anos e apátrida desde os 31 anos.

No dia 10 de Dezembro passado, Dia Internacional dos Direitos Humanos, a Câmara Municipal de Lisboa dedicou-lhe um memorial, próximo onde ela viveu, na Rua da Sociedade Farmacêutica 6b, no largo da esquina entre aquela rua e o Conde Redondo. Quem por ali passar poderá refletir sobre as últimas palavras de Hannah Arendt em Nós Refugiados: “A Europa estilhaçou a sua alma quando deixou que os seus mais vulneráveis fossem perseguidos e escorraçados. Não o esqueçamos nunca, para que não voltemos a perder a nossa alma”. (https://www.publico.pt/2018/12/10/sociedade/opiniao/hannah-arendt-lisboa-1854140)

Para saber mais

https://www.studentsforliberty.org/um-pequeno-guia-para-hannah-arendt

https://www.publico.pt/2017/12/23/local/noticia/hannah-arendt-a-passagem-por-lisboa-a-caminho-da-liberdade-1797052

Obras disponíveis em formato PDF:

 – Origens do Totalitarismo

http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/marcos/hdh_arendt_origens_totalitarismo.pdf

 – Eichmann em Jerusalém

http://www.academia.edu/33480755/Eichmann_em_Jerusal%C3%A9m_-_Hannah_Arendt.pdf