À Margem (Abril 2019)

LIVRO: “O Maior Bem Que Podemos Fazer: como o altruísmo eficaz está a mudar as ideias sobre viver eticamente”, de Peter Singer (2016, Lisboa: Edições 70).

Sinopse

O altruísmo eficaz, que está a dar origem a um movimento emergente repleto de entusiasmo, baseia-se na ideia de que devemos fazer o maior bem que pudermos. Porém, a obediência às regras normais – como não roubar, não enganar, não magoar ou não matar – não é suficiente para os que têm a sorte de viver com conforto material. O ramo da filosofia conhecido como ética prática, e no qual Peter Singer se insere, tem desempenhado um papel importante no desenvolvimento do altruísmo eficaz e este, por seu lado, tem justificado a importância da filosofia, mostrando o seu papel na transformação do mundo. Peter Singer defende que levar uma vida ética minimamente aceitável implica utilizar uma parte substancial dos nossos recursos de sobra para fazer do mundo um lugar melhor; por outro lado, viver uma vida totalmente ética implica fazer o maior bem possível.

Em “O maior bem que podemos fazer” o autor demonstra por que razões o altruísmo eficaz é algo de absolutamente notável e capaz de alargar os nossos horizontes morais, levando-nos a tomar decisões baseadas numa forma lata de altruísmo e a usar a razão para avaliar as consequências prováveis das nossas acções. Numa nova era, é de esperar que as próximas gerações estejam à altura das responsabilidades relativas a problemas que serão tão globais quanto locais.

O altruísmo eficaz baseia-se numa ideia muito simples: devemos fazer o maior bem que pudermos. (…) Levar uma vida ética minimamente aceitável implica utilizar uma parte substancial dos nossos recursos para fazer do mundo um lugar melhor. Viver uma vida totalmente ética implica fazer o maio bem possível” (p.13).

“Algumas instituições de beneficência são fraudes completas, mas um problema muito maior é o facto de muitas poucas serem suficientemente transparentes para permitirem que os doadores verifiquem se estão realmente a funcionar bem” (p.14).

“O altruísmo opõe-se ao egoísmo, que é a preocupação apenas consigo próprio, mas não devemos pensar no altruísmo eficaz como exigindo autossacrifício, no sentido de algo necessariamente contrário aos interesses próprios. Se fazer o mais possível pelos outros significa que estamos também a florescer, então é o melhor resultado possível para todos. (…) O facto de encontrarem realização e felicidade pessoal ao fazerem isso não lhes diminui o altruísmo” (p. 25)

“Os altruístas eficazes sentirão a atração de ajudar uma criança identificável do seu próprio país, região ou grupo étnico, mas perguntar-se-ão se isso será a melhor coisa a fazer. Sabem que salvar uma vida é melhor do que realizar um desejo e que salvar três vidas é melhor do que salvar uma vida. Assim, não doam a qualquer causa que lhes impressione mais o coração. Doam à causa que fizer maior bem, dadas as capacidades, o tempo e o dinheiro disponíveis” (p. 27).

(Singer, Peter (2016). O maior bem que podemos fazer. Lisboa: Edições 70)

Sobre o autor

Peter Singer nasceu em Melbourne, na Austrália, em 1946. Estudou na Universidade de Oxford e é professor de Bioética na Universidade de Princeton e na Universidade de Melbourne. Dirige o Centre for Human Bioethics e o Centre for Applied Philosophy and Public Ethics. Autor de uma vasta bibliografia sobre Ética Prática, na qual trata os problemas filosóficos a partir de uma perspectiva utilitarista, tornou-se particularmente conhecido com o livro Libertação Animal, publicado em meados da década de 1970 e considerado a bíblia do movimento com o mesmo nome. Destacam-se ainda os livros Ética Prática, A Vida que Podemos Salvar e Como Havemos de Viver?

Ver: Peter Singer, O porque e o como do altruísmo eficaz, TED 2013

ACTIVISMO SOCIAL: Afroz Shah – distinguido com título “Campeão da Terra” atribuído pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), em Dezembro de 2016, por ter liderado a limpeza da praia de Versova, na Índia.

Afroz Shah foi o responsável pela “maior acção de limpeza de praia do mundo”, que decorreu em Bombaim, na Índia. Em 2015, este advogado indiano de 36 anos, ao mudar-se para um apartamento em frente à praia de Versova, deparou-se com uma extensão de areia com mais de 2,5 quilómetros coberta de lixo e uma parede com 1,7 metros de altura de resíduos despejados na areia ou que lá chegaram vindos do mar, também altamente poluído.

Sem conseguir aguentar o que via, decidiu, sozinho, começar a apanhar o lixo, tendo no primeiro dia enchido cinco sacos. No entanto, rapidamente percebeu que a tarefa o superava. Começou então a contar com a ajuda de dezenas de voluntários, que passaram a centenas e a milhares. Formou-se um movimento informal.

Através desta iniciativa, mais de cinco mil toneladas de lixo foram retiradas da praia por estudantes, moradores, políticos e estrelas de Bollywood. Pela primeira vez em 20 anos, em 2018, tartarugas marinhas escolheram Versova para nidificar.

Afroz Shah concilia tudo com o trabalho de segunda a sexta, num escritório de advocacia. Aos fins de semana, a sua casa é o centro de comandos das operações dos voluntários, aos quais se junta sempre que pode.

“Eu era uma pessoa muito privada, mas a pressão pública está a crescer de forma orgânica”, indicou. Comprometeu-se a entregar o tempo livre a uma causa, a “liderar pelo exemplo”. No Facebook e no Twitter partilha os objetivos que vai alcançando.

Mas confessa-se cansado e a ponderar cortar nas horas dedicadas ao Direito. “O que faço agora é criar milhares de Afroz em cada cidade, para que o trabalho se torne mais simples. Aos jovens, digo: ‘Assume o teu lugar’”, contou.

“O meu país tem 1,5 mil milhões de pessoas. Já imaginaram se todas pegassem num saco e apanhassem plástico?”, acrescentou o indiano, que, desde que dedicou o primeiro fim de semana a Versova, já contou com a participação de 200 mil voluntários.

“Consistência, persistência e sinceridade” é aquilo que tenta incutir nos voluntários, sobretudo nas crianças e nos adolescentes. “Não basta dizer que vão limpar a praia hoje ou amanhã. É preciso fazê-lo sempre”.

Ler:

https://www.publico.pt/2019/03/09/p3/noticia/limpar-praias-praias-limpas-afroz-shah-tirou-cinco-toneladas-lixo-areal-bombaim-1864678

https://tvi24.iol.pt/internacional/limpeza/antes-e-depois-esta-praia-de-bombaim-que-mudou-radicalmente

Ver:

ARTISTA: Bordalo II – Transforma lixo em arte, espalhando instalações com grandes animais pelas paredes das cidades em diferentes partes do mundo.

Nascido em Lisboa em 1987, Artur Bordalo é neto do pintor Artur Real Bordalo (1925-2017), que aponta como a sua principal referência. Passou pelo curso de pintura da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, mas foi o grafittie que o preparou para o trabalho pelo qual se tornou conhecido: esculturas feitas com recurso a lixo e desperdícios.

Com a série “Big Trash Animals” (algo como “Grandes Animais de Lixo”) tem espalhado pelo mundo vários animais, “uma forma de fazer retratos da natureza, uma composição das vítimas com aquilo que as destrói”.

“Podia fazer rostos humanos, mas a parte humana já está presente neste trabalho a tempo inteiro, por ser criada por um humano e porque todo este material que utilizamos já é humano. Todo este lixo é nosso, não é da Natureza”, referiu, em novembro do ano passado, altura em que inaugurou em Lisboa “Attero”, exposição que foi visitada por cerca de 27 mil pessoas, no espaço de um mês. “Uma das coisas mais importantes para mim é que o meu trabalho não caia no superficial, mas que tenha sempre algo a dizer com uma componente educativa forte e uma parte social e política presente. Se as pessoas vêem as minhas obras, é importante que não seja apenas bonito, mas que tenha uma parte que contribua para uma mudança”.

Está hoje representado em colecções privadas em França, no Japão ou nos EUA, mas não em museus, e tem trabalhado sobretudo fora de Portugal. Só no ano passado, apresentou várias obras de rua, muitas vezes efémeras, no Brasil, EUA, Polinésia Francesa, Chile, Antilhas Holandesas, Reino Unido, Alemanha e Espanha.

Em Portugal é possível ver-se alguns animais criados por Bordalo II, em Lisboa há uma raposa, na avenida 24 de Julho, um sapo, na rua da Manutenção, um macaco, na zona de Xabregas, um guaxinim numa parede na zona de Belém e outras obras em cidades como Estarreja, Loures, Vila Nova de Gaia e Covilhã.

Site de Bordalo II:http://www.bordaloii.com/

Ler:

https://www.noticiasmagazine.pt/2017/bordalo-ii/

http://www.bordaloii.com/

https://www.natgeo.pt/one-strange-rock/2018/03/bordalo-ii-o-artista-atras-do-lixo

DOCUMENTÁRIO: Mar Estranho, National Geographic Portugalhttps://www.natgeo.pt/video/tv/mar-estranho-minidocumentario-national-geographic-portugal

Realizado pela National Geographic Portugal, o mini-documentário “Mar Estranho” debruça-se sobre a importância de protegermos os nossos oceanos contra as toneladas de lixo que nele são depositadas.

Deixar o lixo e outros detritos nas praias ou, simplesmente, não efectuar a devida reciclagem, são actos que levam a que os nossos oceanos se transformem em autênticos depósitos de plástico e lixo variado.

Bordalo II, um dos pioneiros na reciclagem de materiais – principalmente de lixo – para a execução das suas obras, é um dos actores deste pequeno filme e o seu trabalho fala por si. A forma como utiliza este tipo de materiais no seu trabalho artístico, encerra em si a sua própria intervenção nesta área, na preocupação que devemos ter em reciclar.

A propósito da estreia da série “One Strange Rock”, Bordalo II aceitou o convite da National Geographic para criar uma instalação totalmente construída a partir do lixo encontrado no mar. O resultado final esteve exposto na Praia de Carcavelos e hoje em dia pode ser visto no Museu do Mar, em Cascais.