Editorial (Abril 2019)

Este mês tratamos de Ética. Não convidámos filósofos, sociólogos ou mesmo pesquisadores das ciências políticas ou médicas, no âmbito dos comportamentos ou do desenvolvimento cerebral. Não é que ficasse mal a sua presença. Preferiu-se, todavia, olhar os acontecimentos através da sensibilidade que o quotidiano transmite, a nós que andamos na rua, nos transportes públicos, que frequentamos os Tribunais ou que, ao final do dia, nos sentamos diante do televisor a escutar mais uma notícia sobre interesses, reveladores de falta de Ética.

Uma década depois de o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente ter apresentado ao Grupo do G20 uma inédita iniciativa verde, o New Global Green Deal (Novo Acordo Global Verde), assistimos a uma réplica daquela proposta, surgida precisamente num dos mais significativos países daquele grupo económico, os Estados Unidos da América.

Em Fevereiro passado, a congressista Alexandria Ocasio-Cortez e o senador Ed Markey, do Partido Democrata, apresentaram “Green New Deal”, um plano ambiental para criar uma economia mais amiga do meio ambiente e de baixo carbono, até 2030. E se a ideia recupera o nome do projecto de recuperação económica do Presidente Franklin Roosevelt, por ocasião da chamada “grande depressão”, entre 1933 e 1937, o mais curioso é o facto de aqueles membros do Partido Democrata se terem atrevido a rever, 10 anos depois, a iniciativa verde das Nações Unidas, nunca correspondida pelos governos do G20. E precisamente num momento em que a liderança política dos EUA revela uma absoluta indifença perante as diversas problemáticas ambientais, aqueles dois membros do Partido Democrata assinam um compromisso ético, apresentado ao Congresso, sustentado numa revisão de todo o modelo de desenvolvimento – abrangendo desde o modelo de agricultura à implementação de mecanismos antidiscriminatórios; ou ainda do reconhecimento sobre a necessidade de uma rede tecnológica energética limpa à legislação sobre direitos sindicais ou ainda à criação de programas de alimentação saudável… (*).

Há dez anos já a ONU, através da sua agência para a defesa do ambiente, propunha aos mais ricos do mundo (responsáveis por 80 por cento de emissões globais de gases de efeito estufa) um investimento de 1 por cento do seu PIB total para “promoção de sectores económicos verdes”, como por exemplo eficiência energética nos edifícios a construir, assim como nos já construídos, ou ainda nos transportes públicos, com a aquisição de veículos híbridos. A estes, e muitos outros, apelos não responderam os membros do G20, revelando a sua insensibilidade uma profunda falta de ética (**).

Estará o conteúdo deste Editorial desajustado quanto à matéria que acima se mencionou: a Ética?

Não. Os assuntos retratados servem somente de amostra. Enquanto os governantes do G20, perante as preocupações das Nações Unidas, mostraram uma face não-ética, os dois protagonistas do New Global Green Deal norte-americano, afirmam depois de tanto tempo desperdiçado, que a Ética (com maiúscula) é uma determinação que permanece, felizmente, na consciência humana. Daí não temermos os juízos “fora de tom” de um Juiz português nem a permanência de, no Parlamento do nosso país, atitudes pouco sãs quando toca a dar “pelouros” a deputados, ainda por cima em casos de deveriam, particularmente, ter em conta a Ética, como é o caso dos Vistos Gold.

Mas que confusão o Editorial semeia!

Não, caríssimas e caríssimos que nos lêem. As questões ambientais que hoje nos “carregam” a vida, tiveram (e continuam a ter) muito a ver com atitudes e decisões de falta de ética assumidas em instâncias públicas e políticas que, esquecendo o comezinho quotidiano das populações, se vão transferindo para âmbitos mais amplos, que já não tornam algumas vidas inseguras, mas sim a vida TODA da Humanidade.

Revisitaremos, oportunamente, as questões éticas levantadas pelo projecto New Global Green Deal, apresentado no Congresso dos EUA.

(*) http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/586964-o-green-new-deal-a-luta-contra-a-degradacao-ambiental-e-o-aquecimento-global

Este sítio do Instituto humanitas Unisinos, do Brasil, remete para um conjunto de referências específicas da proposta New Global Green Deal

(**) https://wedocs.unep.org/rest/bitstreams/11748/retrieve

Este documento das Nações Unidas foi apresentado na reunião do G20, em Setembro de 2009