“Porque hei-de eu ser bom e não mau?”

Em certo país vivia um homem muito rico e um homem muito pobre. Tinham cada qual o seu filho. O homem muito rico levou o filho ao cimo de um monte, mostrou-lhe com um gesto a paisagem em redor e disse-lhe:

 – Olha, um dia tudo isto será teu.

O homem muito pobre levou o filho ao cimo do mesmo monte, mostrou-lhe a paisagem em redor e disse-lhe:

 – Olha.

(Carrière, Jean-Claude, (2009). Nova Tertúlia de Mentirosos. Lisboa: Editorial Teorema, SA.)

A todo o momento, no nosso quotidiano individual e relacional, somos confrontados com a necessidade de tomar decisões ou ainda a escolhas nas quais as dicotomias certo e errado, bem e mal, justo e injusto são evocadas.

A dimensão ética das nossas acções manifestam-se, precisamente, quando, onde e porquê é justo ou injusto para mim, para o meu semelhante, para a comunidade, para o ecossistema, para as gerações vindouras fazer ou deixar de fazer algo. É nessas ocasiões  que se coloca a questão central da ética “Porque hei-de eu ser bom e não mau?”(Henrique & Barros, 2013:326).

A ética trata de compreender o agir humano, conduzindo-nos, desse modo, a um pensamento universal do certo ou errado.

Frequentemente os termos ética e moral são utilizados indistintamente, como se fossem sinónimos. Porém, têm uma etimologia diferente, enquanto a moral, do latim moros, se centra na obediência a normas, costumes, mandamentos culturais, hierárquicos ou religiosos, a ética, do grego ethiké, lida com o conjunto de valores e princípios que norteiam a conduta humana em sociedade e embora não possa ser confundida com a lei, se enlaça com o sentimento de justiça social. A moral responde à questão “como devo fazer?” e a resposta é imperativa, obriga a cumprir um dever fundado num valor moral imposto por uma autoridade. A ética responde ao “como viver?” e a explicação encontra-se nos princípios pelos quais a pessoa humana, enquanto ser racional e livre, rege o seu comportamento.

Daí, o agir ético assentar na regulação individual do comportamento pois tem origem na própria pessoa, e de cujos princípios e valores a Declaração Universal dos Direitos Humanos é referência. O agir ético conforma-se ainda no apelo que faz à autonomia e ao juízo pessoal, funcionando como um sistema de auto-regulação, aplicado ao contexto pessoal e social.

O agir ético combina reflexão e julgamento individual, cultiva a responsabilidade e a liberdade, permite questionar normas e valores, contestar costumes desadequados, legislação ultrapassada ou injusta, diante da compreensão das mudanças culturais, e por isso suscitando o debate sobre problemas não regulados e a necessidade de novas leis ou normas deontológicas. A ética coloca-se no âmbito da consciência e a única sanção é, eventualmente, o arrependimento.

Ou seja, a compreensão de que as acções e decisões pessoais podem afectar e ter repercussões negativas na vida de outros deve estar presente em cada um de nós,  aplicar a nós os mesmos critérios que aplicamos aos outros, ou de modo mais expedito, “faz aos outros aquilo que gostarias que te fizessem a ti”. Isto significa que aquilo que a ética exige que façamos nem sempre convive com aquilo que seria mais vantajoso para nós próprios.

O raciocínio ético é universal. Determina a acção mais justa para uma dada situação, à luz de princípios socialmente partilhados; reflecte não apenas sobre o meio a utilizar mas também sobre o fim a atingir, aplicando um valor que a legitima. A acção funda-se em valores e não no dever.

Face à questão “Porque hei-de ser bom?”, Platão responde que é uma forma de realização pessoal; por seu turno, Immanuel Kant porque é a única forma sermos livres e dignos; e enquanto Stuart Mill considera como o caminho para a felicidade, já Max Scheler declara que é a única forma de termos valor infinito (Henriques & Barros, 2013).

A ética é a arte de bem agir e de bem viver. Não de um modo egoísta mas altruísta, tendo em conta não somente o bem pessoal mas o bem comum, pois:

“só na relação com os outros faz sentido a ética. Só porque eu e os outros nos reconhecemos como seres humanos, iguais em dignidade e distintos na existência, pode a consciência ética desenvolver-se (…). Identificarmos o outro como ser humano é a inibição do mal. Só o recíproco reconhecimento humano pode tornar este mundo melhor” (Ibid.:340).Ver:

Ver: “O que é a ética?” (Mendo Henriques):

https://m.youtube.com/watch?v=USUgjMoyA0kV

Bibliografia

Henriques, M. & Barros, N. (2013). Olá, Consciência. Uma viagem pela filosofia. Barcarena: Santilena Editores S.A.

Levinas, E. (2013). Ética e infinito. Lisboa: Edições 70.

Kleinman, P. (2018). Filosofia: Tudo o que precisa de saber. Barcarena: Brilho das Letras.

Singer, P. (2016). O maior bem que podemos fazer. Lisboa: Edições 70

Singer, P. (2017). Ética no mundo real. Lisboa: Edições 70.

Ler

Carta ética da administração pública

https://www.ua.pt/file/50963

Código de ocnduta do XXI Governo Constitucional

https://dre.pt/application/file/a/75381061

Imprensa escrita:

Auditar a ética dos serviços públicos:

https://ionline.sapo.pt/512860?source=social

https://www.publico.pt/2011/12/16/jornal/etica-transparencia-espirito-publico–e-o-que-faz-falta-na-politica-23619066

https://www.publico.pt/2009/08/27/jornal/a-etica-na-vida-politica-portuguesa-17640437

https://www.publico.pt/2012/05/26/jornal/da-etica-politica-o-publico-e-o-privado-24607283

https://www.publico.pt/2010/04/25/jornal/etica-das-virtudes-19262040

https://www.publico.pt/2001/05/21/jornal/liberdade-e-etica-157944

https://www.publico.pt/2008/09/20/jornal/em-democracia-a-etica–nao-se-confunde-com-a-lei-276732