Simplicidade Voluntária

A Terra é um sistema único e estreitamente interligado. Tanto a ecologia natural da Terra como a ecologia social das relações humanas estão em risco profundo.(Duane Elgin)

“A simplicidade é a derradeira sofisticação”. (Leonardo da Vinci)

“Optamos por viver simplesmente para que os outros possam simplesmente viver”. (Gandhi)

O direito à vida, contemplado no artigo 3.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, encontra-se comprometido face às alterações climáticas, à degradação ambiental, à destruição das florestas, à finitude dos recursos naturais, à extinção de espécies, à falta de água, às colheitas fracassadas,  Foi excedida a capacidade da Terra para sustentar os actuais níveis de consumo. Acrescente-se o crescimento demográfico acelerado, segundo as projecções da ONU em 2050 irá atingir-se um máximo de 9,6 mil milhões de pessoas (actualmente já somos 7,2 mil milhões) e a consequente pressão que isso terá sobre os recursos naturais, a biodiversidade, a poluição, o aquecimento global. Se o quadro actual é crítico, tornar-se-á rapidamente insustentável. (https://www.unric.org/pt/actualidade/31160-relatorio-das-nacoes-unidas-estimaque-a-populacao-mundial-alcance-os-96-mil-milhoes-em-2050-)

A Comissão Europeia estabelece como causas das alterações climáticas “o impacto das actividades humanas, nomeadamente a queima de combustíveis fósseis, o abate da floresta tropical e a pecuária” (https://ec.europa.eu/clima/change/causes_pt), alertando que todas as regiões do globo estão a ser afectadas por essas alterações: “as calotas polares estão a derreter e o nível do mar está a subir. Em algumas regiões, os fenómenos meteorológicos extremos estão a tornar-se cada vez mais comuns e a pluviosidade está a aumentar, enquanto, noutras, as vagas de calor e as secas estão a agravar-se” (https://ec.europa.eu/clima/change/consequences_pt). E, de acordo com as previsões, esses impactos irão intensificar-se nas próximas décadas. A Europa, em concreto, tem vindo a registar com maior frequência vagas de calor, incêndios florestais e secas, com os inerentes efeitos na saúde humana e com pesados encargos para a sociedade, a economia, a fauna e flora.

Em consonância com o artigo 1.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, como seres dotados de razão e de consciência, devemos agir uns para com os outros em espírito de fraternidade, significa isto, que cada um de nós é convocado a introduzir no seu quotidiano as mudanças que permitam um modo de vida sustentável, com sentido e viável, para nós, para as gerações vindouras e para todas as outras formas de vida. Mas atenção, precisamos mais do que as mudanças cosméticas exploradas e anunciadas pela indústria verde. O nosso estilo de vida precisa de ser reavaliado, são necessárias mudanças profundas, desafiadoras e criativas. E o tempo urge.

O escritor norte-americano, Duane Elgin (2010:33-35)  propõe um caminho: a simplicidade voluntária, uma escolha feita de modo livre e consciente, uma revolução sem líderes, pois cada pessoa assume o controlo da sua vida. A simplicidade significa: (1) “assumir o controlo de vidas demasiado atarefadas, stressadas e fragmentadas” e concentrar-se no essencial; (2) “optar por estilos de vida que tocam mais levemente na Terra e reduzem o nosso impacto ecológico” e aceitar “o facto de os reinos não humanos das plantas e dos animais também possuírem dignidade e direitos”; (3) “colocar o bem-estar da família à frente do materialismo e da aquisição de coisas” bem como “a qualidade e integridade das relações com os outros”; (4) “sentir uma tal proximidade com os outros” que suscite “a vontade de partilhar um caminho de cooperação e justiça que busca um futuro de desenvolvimento mutuamente assegurado para todos”; (5) “abordar a vida como uma meditação e cultivar a experiência de ligação directa com tudo o que existe. (…) A simplicidade da alma está mais preocupada com o saborear consciente da vida e das suas riquezas sem adornos do que com padrões especiais da vida material”; (6) reduzir “os gastos em tudo o que não serve verdadeiramente as nossas vidas e praticando uma gestão habilidosa das finanças pessoais, podemos alcançar maior independência financeira”. (…) Viver com menos também reduz o impacto do nosso consumo na Terra e liberta recursos para outros”.

A simplicidade é uma via para a sustentabilidade. Recorde-se que “o carácter de uma sociedade é o resultado cumulativo de incontáveis pequenas acções do dia-a-dia de milhões de pessoas. As mudanças pequenas que isoladamente parecem pouco importantes ganham um significado transformador quando são adoptadas por toda a sociedade” (Elgin, 2010: 46).

Bibliografia

Elgin, Duane (2010). Simplicidade Voluntária. Para um estilo de vida simples por fora e rico por dentro. Alfragide: Estrela Polar.

Website: https://duaneelgin.com/

Documentário: Do Mito da Abundância à Simplicidade Voluntária (52 min).