Da Água e dos Pneus: Que os une ou Divide?

Se nos perguntarem o que sabemos sobre a incidência de poluição nos mares resultante da fricção dos pneus nas estradas, talvez desconfiemos da razoabilidade da questão. Do igual modo poderemos ficar surpresos diante de alguém que, ao mostrar-nos um pneu, garanta que a base do seu fabrico foram árvores ou musgos…

Em 2014, o biólogo John Weinstein, ao acompanhar alunos de pós-graduação, na zona costeira da Carolina do Sul (EUA), suspeitou da presença de partículas de resíduos de pneus no oceano.  Os indícios provinham de microscópicas amostras, como se fossem sacos plásticos de forma tubular, de cor preta, e sem origem conhecida… O desenvolvimento desta estranha descoberta foi relatada pela National Geographic (*), na sua edição de Outubro passado, revelando que, a inspecção feita por aquele biólogo, com os seus alunos, num porto de pesca próximo do local da recolha das amostras, divulgou que a misteriosa poluição não provinha de redes de pesca, como chegaram a suspeitar, mas sim de pneus. Ou seja, da fricção resultante da passagem dos pneus de veículos pelo alcatrão de estradas envolventes…

Em Fevereiro de 2017, a THE UNIPLANET (**) já reportara a informação, Citando um membro da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN): «Descobrimos que a maioria dos microplásticos provém ou das roupas ou dos pneus. Os microplásticos estão a invadir todo o mar e a cadeia alimentar. Fechemos a torneira do plástico». E referindo um estudo daquela instituição a THE UNIPLANET revelava: «As minúsculas partículas de plástico que se soltam de produtos como as roupas sintéticas e os pneus dos automóveis representam até 30% do plástico que vai parar ao mar, todos os anos. Em alguns países, são inclusive uma fonte maior de poluição marinha do que os próprios resíduos de plástico».

Mas à interrogação de como é possível micropartículas de materiais componentes de pneus “inundarem” os mares, sobrepõe-se a notícia – benigna e promissora – de que investigadores liderados pela Universidade do Minnesota encontraram uma maneira de produzir isopreno (o ingrediente-chave da borracha sintética utilizada no fabrico de pneus) a partir de fontes naturais, como ervas, árvores e milho, em vez de combustíveis fósseis. Não é rigorosamente garantida, todavia, esta solução… Das várias ponderações há que a considerar o modelo tecnológico de extracção dos produtos naturais; entre as mais vulneráveis circunstâncias que poderão ocorrer é o facto de se cair em novos erros, como a extensão massiva de culturas ou de abate de árvores, por exemplo, para aquela finalidade. Isto, apesar de estarem em estudo, em diferentes sectores de investigação universitários e de empresas ligadas ao sector de fabrico de pneus, novas pesquisas…

E qual é a nossa quota parte de cidadania, neste processo? De momento, porque alinharmos em intervenções de limpeza de praias – como as que a STRAW PATROL(***), no Algarve, promove. Numa destas iniciativas, 14 elementos da equipa de limpeza, retirou mais de 267 kgs de resíduos.

E acima de tudo, poderemos utilizar menos vezes o nosso carro, mesmo quando chove… Será que para não se molhar o pão que vamos buscar ou quando desejamos ir até um café, teremos mesmo de accionar a ignição do automóvel? Por outro lado, temos necessidade, sempre, de conduzir a velocidades “estonteantes”? O grau de atrito causado pelo pneu pela velocidade é uma das razões de desgaste maior, levando a produzir mais micropartículas que espalham… até às ribeiras, ao ar que respiramos.

Não nos resta lamentar ou apontar dedo!

A propósito: não deixe de ver, nesta secção, o vídeo que levou a bióloga marinha, Carla Lourenço, a envolver-se na criação da STRAW PATROL, em 2016.

Consultar:

(*)https://www.natgeo.pt/meio-ambiente/2019/10/pneus-poluidor-plastico-que-passa-despercebido

(**)https://www.theuniplanet.com/2017/02/plastico-que-se-solta-de-pneus-e-roupa.html

(***)http://swell-algarve.com/2017/03/20/straw-patrol-recolhe-lixo-na-ria-formosa/