Editorial (Novembro 2019)

«A verdade vai vencer». Vandana Shiva não é dogmática, como a frase poderá parecer ao ser lida assim desligada de contexto. A física nuclear esteve este mês esteve no Porto, no âmbito da iniciativa Fórum do Porto, deste ano, (https://www.forumofthefuture.com/programa/), sobre as semelhanças e diferenças entre os antigos e os novos processo de colonização. «O que a bula papal representou para a legitimação da colonização no século XV, representam no século XXI os acordos de comércio livre; e os direitos de propriedade sobre terras roubadas são hoje os direitos de propriedade intelectual sobre conhecimentos ou sementes», afirmou. No âmbito desta problemática civilizacional que hoje enfrentamos que Vandana Shiva reafirma a sua confiança no poder da verdade.

Defender os Direitos de toda a Natureza é a ideia que alimenta esta edição do DISSONÂNCIAS, e em nome da verdade, a exemplo do que Vandana Shiva nos recomenda…

Sabemos de antemão que, não respeitada a restante Natureza – a “outra” que não o ser humano, e a qual ele naturalmente integra –, o nosso destino está em risco. Isso já sabemos!

Sim, é verdade. Mas a maior verdade é que não integrando esta consciência podemos correr riscos dissolutos, quer nunca mais permitam um regressar ao NATURAL. É precisamente disto que trata na secção Desconforme, onde se dá a conhecer a lutadora incansável que é Vandana Shiva, assim como a sua intervenção contra a apropriação de sementes por parte das multinacionais da agro-indústria, através da criação de patentes. Este processo obriga os agricultores a pagarem royalties pela sua utilização – um verdadeiro drama que só na Índia, o país onde nasceu há 67 anos, já conduziu ao suicídio mais de 300 mil cultivadores de algodão –,  Vandana Shiva não desiste de afirmar a urgência de se «encontrar novas acções para a liberdade, novas solidariedades pela liberdade».

O mesmo é abordado na secção Direitos Humanos em Agenda, porque o direito aos Direitos não constitui prerrogativa da espécie humana… A questão surge inapelavelmente no processo político que está a delinear a construção de mais aeroporto internacional em Portugal, no Montijo.

A construção de um novo aeroporto traz, naturalmente, à tona da controvérsia um sem-número de opiniões, a maioria das quais difíceis de avaliar pela maioria dos cidadãos, devido ao intrincado conteúdo tecnológico e científico que envolve, como se escreve na secção A Ponta do Icerberg.

O acordo concertado entre Governo e a empresa francesa Vinci/ANA Aeroportos de Portugal – a quem foi entregue «a ‘soberania aeroportuária’ por 3,08 mil milhões de euros», como recorda o jornalista Edgar Caetano no OBSERVADOR, na edição de 27 de Setembro passado, citando o Bastonário da Ordem dos Engenheiros, Carlos Mineiro Alves –, nunca foi devidamente explicado aos portugueses.

Em Outubro passado, a Agência Portuguesa do Ambiente procedeu a uma declaração favorável  quanto à construção de um novo aeroporto no Montijo, que será implantado numa zona que coloca sérias interrogações a diversos observadores. Desde o Bastonário da Ordem dos Engenheiros, que considerou um «cenário de perigo», no que ao futuro respeita, devido às alterações climáticas, mas também os ambientalistas da ZERO recorrem à defesa do Direito à vida, por parte da fauna que naquela zona reside, e que integra espaços únicos de sobrevivência para um conjunto de famílias de aves.

Os pneus dos automóveis representam até 30% do plástico que vai parar ao mar. Na secção Terceiro Planeta aborda-se a questão, conduzindo de novo os nossos sentidos, e consciência, aos Direitos da Natureza

Cientistas já nos afirmam, contudo, as possibilidades que a tecnologia permitirá – o milho e produtos extraídos de árvores substituirão a componente de borracha dos pneus (?) –, tal como o fez, já em 2017, Paul Dauenhauer, pesquisador principal e professor associado de engenharia química e ciência de materiais daquela universidade, à NEWSWEEK (Ver: https://www.newsweek.com/new-eco-friendly-renewable-tires-stretch-boundaries-rubber-production-564165). Na sua opinião esta experiência inovadora poderá «ter um grande impacto nas principais empresas de pneus», e repercussões benéficas para a actual indústria química. Sabe-se, todavia, que a exploração e utilização de fontes naturais não é inócua, como sublinha a NATIONAL GEOGRAPHIC as experiências já das concrectizadas não existem confirmações absolutas de que os pedaços destes novos pneus não também poderão acabar por serem poluentes.

Finalmente, na secção A PONTA DO ICEBERG ainda se interroga o Governo de Portugal sobre 1 180 000 000 milhões de euros, valor de cativações a que Mário Centeno, ministro das Finanças, recorre para não entregar aos diferentes organismos do Estado o que lhe é de direito pelo Orçamento de Estado, aprovado pela Assembleia da República…

Um escândalo, é no mínimo o que se pode verbalizar, quando a falta de médicos é inegável (só quem nunca frequentou, nos últimos 10 anos as urgências, assim como outros serviços dos hospitais, é que poderá afirmar o contrário); num tempo em que a deficiência de transportes públicos já não é somente um “buraco negro” no interior do país (há povoações no Litoral do país que, ao fim-de-semana e na época de férias escolares não têm acesso, pelo menos, à sua sede de Concelho); e ainda quando o actual modelo de Ensino, bem como o panorama da Cultura, são mostruários de uma falta de rumo, de um não-saber “o que fazer com a coisa”, como caminha neste sentido o Governo, defraudando uma votação obrigatória de uma maioria de dois terços de deputados da Nação e ainda os cidadãos que, na última legislatura, viram os impostos indirectos (aqueles que se pagam no consumo) serem agravados de modo significativo…

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