Resta-nos ver mais longe…

Vivemos, neste momento, dois tempos diferentes, em simultâneo: o nosso presente da vida confinada e o tempo da espera que a pandemia acabe. Nem um nem outro, nem os dois sobrepostos, ajudam a agir. Alguns pensam que este período de isolamento deverá ser aproveitado para tomar consciência da necessidade de mudar de vida, recusando voltar à “normalidade”. (…)

Através das fragilidades e insuficiências das políticas de saúde, esta crise revelou in vivo a desigualdade que condena tendencialmente os pobres à contaminação e à morte, a indiferença dos sistemas económicos perante o sofrimento e a doença, ou a falta de solidariedade e de coesão dos Estados Ωmembros da União Europeia. Mas mais profundamente, ela mostrou, segundo muitos, a futilidade e o vazio da vida sem sentido em que os povos viviam antes da pandemia.

 (…) A verdade é que este período de luta pela sobrevivência física não gerou até agora nenhum sobressalto político ou espiritual, nenhuma tomada de consciência da necessidade de mudar de vida. Não gerou esperança no futuro. No nosso país, a unidade nacional foi reforçada apenas no sentimento colectivo de compaixão pelos mortos e doentes, e pela gratidão com os médicos e enfermeiros. Talvez um pouco, também, pela adesão geral à política do governo.

Não se conceberam nem novos valores éticos, nem novos programas económicos ou práticas políticas. E nem a violência brutal do sofrimento e da morte nos hospitais, escancarada no espaço público mediático, conseguiu varrer as imagens enganadoras com que nos habituámos a lidar com a realidade. O confinamento não favoreceu a reflexão e a acção, pelo contrário, suspendeu o tempo, a vida activa e o pensamento. O contágio temido, imaginado, alucinado, foi o único acontecimento que condicionou as emoções e os gestos quotidianos.

(…) De resto, o confinamento não foi e não é um tempo de expansão e alegria. Com as ruas desertas, as cidades silenciosas e o sofrimento gritante dos doentes, a casa em que nos fechámos não constitui, propriamente, um lugar de entusiasmo e criação. Nem propício à meditação metafísica, nem à elaboração de grandes projectos de vida. Afinal, a grande maioria das pessoas quer “voltar à normalidade”

(…) Ao ver o desejo premente e angustiado dos políticos de certos países da Europa, de acabar, neste mês de Abril, com o isolamento obrigatório para pôr a economia a funcionar, constata-se que se está a preparar tudo para voltar e retomar – por mais difícil que venha a ser – o estado de coisas anterior.

Resta-nos ver mais longe, e prepararmo-nos, com o máximo das nossas forças de vida: esta crise não é independente da crise ecológica que estamos já a viver e que em breve atingirá um patamar irreversível. Aí, e porque para ela não haverá vacina, teremos todos de pôr radicalmente em questão o tecno-capitalismo e os seus modos de vida, se quisermos ter um (outro) destino na Terra.

In, José Gil, “A Pandemia e o Capitalismo Numérico”, Público, 12 de Abril de 2020, https://www.publico.pt/2020/03/15/sociedade/ensaio/medo-1907861

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# 1

Não tenho ideias…não consigo refletir….nem sequer pensar. A cada minuto que passa as ideias atropelam-se,  amontoam-se, enrolam-se e também elas formam uma bola qual vírus com picos semelhante ao inimigo que todos conhecemos pelos piores motivos.

Estou bloqueada. Se por um lado anseio pelo otimismo de que tanto gosto e que me costuma repetir ao ouvido que nada é por acaso e que no avançar do mundo as transformações são sempre mais positivas embora sofredoras, logo caio numa apatia sentindo que de nada vai valer este confinamento, esta vã esperança que à força nos querem injectar.

Foi pouco tempo para grandes mudanças. Não bateu fundo ainda. Tal como alguns répteis mudam a pele  para renascer e continuar a rastejar, um renascimento de conceitos teria que operar em toda a amplitude e apagar os decrépitos hábitos de uma sociedade podre mas tão colados que arrancá-los seria muito doloroso.

Do pânico vamos passar ao medo, ao receio, e lentamente ao normal funcionamento das nossas vidas e tudo vai continuar na mesma. A economia vai prevalecer, o Estado vai arrecadar os milhões de que precisa, o cidadão vai trabalhar para refazer as suas finanças, alguns perderam outros vão ganhar, este tsunami vai passar, as réplicas do tremor vão enfraquecer, a apatia vai renascer. Deus queira que me engane. 

Maria Emília

# 2

Em toda a  história da humanidade houve situações idênticas. A desigualdade que existia em nada mudou. Os sistemas económicos sempre se sobrepuseram aos valores, à ética e se houve alguma vontade de mudança não partiu do poder político.

Este confinamento é dramático na medida em que, como sempre, o pobre, o remediado ficará mais pobre. 

No entanto, a crise ecológica  poderá vir a ter dias melhores. 

A meu ver já deu provas de  ser recuperável. E, espero sinceramente, quero querer  que, contrariamente ao passado,  haja alguma tomada de consciência da parte de quem governa.

Este confinamento obriga a tomada de resoluções imediatas da parte do poder político o que dificulta a reflexão. E, como  se tem verificado, a União Europeia está a ter falhas graves.

No entanto, a esperança deve sempre permanecer.  A vontade de criar novos programas e retificar  o que está mal poderá surgir no espírito de cada um.

Creio  numa mudança  lenta, muito lenta, mas progressiva.

Graziella

# 3

O medo, a incerteza e a fragilidade preenchem o intermezzo do presente sobreviver.

É o medo de contágio pelas repercussões na vida pessoal, familiar e relacional. É o medo amplificado pelo que se desconhece, pelo noticiário diário que, na ânsia de informar, nutre um sentimento de letargia. É o medo daqueles que foram afectados pela perda significativa de rendimentos e do próprio emprego. É o medo daqueles cuja longevidade os torna mais vulneráveis à infecção bem como dos que padecem de debilidades físicas crónicas. É o medo vivido na angustia, solidão e sofrimento que corrói física e psicologicamente.

É a incerteza quanto à evolução da pandemia. É a incerteza quanto à dimensão das crises económica e social que se irão abater e as consequências, a jusante, no campo político, com os populismos e extremismos de pendor autoritário à espreita. É a incerteza quanto a uma certeza: a crise ecológica que se avizinha.

É a fragilidade emocional nas noites mais escuras e no cinzento de alguns dias. É a fragilidade das nossas estruturas sociais, económicas e institucionais. É a fragilidade da espécie humana que dominou e espoliou a natureza e, agora, se vê confrontada com um ser invisível, o SARS-CoV-2, que não respeita hierarquias, raças, etnias, fronteiras, banqueteando-se em um qualquer hospedeiro humano.

Regressar à normalidade? Mas qual normalidade? Não podemos abdicar da esperança num mundo melhor para nos fixarmos no desejo de que tudo possa voltar a ser como em tempos foi.

Necessitamos de um modelo de desenvolvimento sustentável e inclusivo que concilie as exigências ecológicas, os direitos e deveres humanos, num quadro democrático e plural. Que se paute pela ética do cuidado, pela cooperação, generosidade e emancipação.

Impõe-se o questionamento individual: Estou convicta de que é necessário mudar? Que mudanças estou disposta a adoptar enquanto pessoa humana, enquanto cidadã, enquanto consumidora, enquanto profissional?

Uma democracia sólida depende do modo consciente como cada cidadão exerce a sua cidadania no quotidiano. Do modo amável e empático como olhamos e cuidamos os outros.

Ninguém disse que as utopias são fáceis. Mas muitos demostraram que eram possíveis. Use-se a criatividade, a vontade, a esperança, a confiança em nós e na humanidade, como ferramentas. Tenhamos a coragem de ver mais longe…, de suscitar uma ideia de futuro pela qual valha a pena viver e lutar!

Ana Paula

# 4

A consciência que o Nós é mais importante que o Eu, mas que uma ação individual poderá ser o início da mobilização do Nós, é algo que dá esperança à humanidade e que poderá ser potenciador a mudanças importantes em futuras ações humanitárias.

Alexandre

# 5

Obrigados a desacelerar consumimos e desperdiçamos menos, mas a economia e a sociedade em que vivemos não esta preparada para isso, a pobreza e as desigualdades sociais tornaram-se mais profundas. O que nos poderá salvar? Mais cooperação?

Elsa

# 6

A crise pandémica e as respetivas medidas de confinamento surgem de forma surpreendente para a grande maioria da população europeia. Apesar da sociedade globalizada e de um mundo económico e logístico altamente interligado, prevaleceu um sentimento de indiferença a respeito da rápida evolução de uma – na altura ainda – epidemia, em países cada vez menos distantes.

Hoje, esta recusa manifesta-se na forma apática com que a sociedade (re)age perante esta nova realidade. Há uma inércia na aceitação de premissas para uma nova vida, que necessariamente questionam e incompatibilizam o desequilíbrio que promovemos enquanto sociedade e enquanto espécie. O desejo generalizado é, por isso, de retorno. A impaciência de querer voltar onde já se esteve e de ser como já se foi, é um sentimento bem conhecido de movimentos e discursos populistas, que de uma forma simplista o procura legitimar.

Por outro lado, é desafiante observar e interpretar o modo que outros continentes e culturas encaram este tipo de crise de saúde pública onde, ao invés do medo do contágio do próprio, prevalece uma consciência generalizada de que o contágio a outros deve ser prevenido a todo o custo. Perante este paradigma, a forma física com que nos habituamos – por cá – a expressar proximidade, preocupação, e solidariedade dificilmente será a mesma.

O salto cognitivo, ético, espiritual e político, não será fácil para a sociedade. Mas talvez a nossa adaptação a estas realidades e o nosso reajustamento a novas liberdades individuais se relativize face à gravidade das consequências humanitárias da nossa inação.

Filipe

# 7

Ainda não há vacina. Para o Covid-19, assim como para a consideração final – e, por isso mesmo, primordial – do texto de José Gil: há que “pôr em questão o tecno-capitalismo e os seus modos de vida”. Todavia, não por decepção ou sobranceria, partilho o olhar precavido do filósofo: “constata-se que se está a preparar tudo para voltar e retomar – por mais difícil que venha a ser – o estado de coisas anterior.”

Pílar Mateo, cientista química espanhola, é reconhecida, particularmente, pelas suas metodologias de investigação para conter um conjunto de doenças endémicas e, concomitantemente, pelo seu exercício de cidadania em favor de multidões na América Latina, Ásia e África desprovidas de recursos individuais ou colectivos, assim como de circunstâncias sociais e políticas. Numa entrevista, na edição do passado 27 de Abril, ao EL PAÍS, Pilar considerou precisamente que a “nuvem” desta pandemia, que assustou o mundo civilizado e rico, poderá fazer-nos cair na conta de que repentinamente vemos que existem doenças capazes de parar o mundo… Ou seja, que é necessário iniciarmos uma reflexão profunda sobre o valor que damos à vida de umas pessoas, só porque vivem numa determinada parte do globo, o qual não concedemos, de modo igual, a outros seres humanos, apenas porque vivem “longe, muito longe” das nossas vidas acomodadas. Como exemplo, Pilar Mateo recorda os 216 milhões de pessoas que sofrem ainda com a malária, enquanto aquela doença no seu país (Espanha) está erradicada desde 1964!

É este o cerne, o âmago da discussão fundamental, colocada por José Gil: ou nos reconhecemos todas e todos humanos ou estamos destinados a um “descuido” impensável, que de alienação em alienação nos vá soterrando enquanto Humanidade.

Atrevo-me a um desafio: se não desejamos que tudo retome ao “estado de coisas anterior”, não poderemos iniciar um agir colectivo, cujo numérico não é o importante, mas sim o colocar em questão este modelo de Viver?

Mário

Um comentário em “Resta-nos ver mais longe…”

  1. Ver mais longe… foi o mote para a primeira partilha num molde “sui generis” de tertúlia. Embora privados de um encontro num mesmo espaço físico, foi-nos possível “comunicar” o nosso sentir e pensar, de um modo talvez mais intimista do que aquele que seria possível num primeiro encontro entre “estranhos”, comprometidos com o seu tempo, partilhando por isso mesmo a esperança na mudança societal.

    Mudança essa que pretende evitar o cenário de continuidade temido pela Maria Emília “do pânico vamos passar ao medo, ao receio, e lentamente ao normal funcionamento das nossas vidas e tudo vai continuar na mesma”.

    Daí a pertinência da indagação-resposta da Elsa: “O que nos poderá salvar? Mais cooperação?”

    O Alexandre avança com um caminho possível a “acção individual poderá ser o início da mobilização do Nós”. Mas, primeiro, como salienta a Ana Paula, avaliemos o grau da nossa convicção nessa mudança e só então estaremos aptos a “uma ideia de futuro pela qual valha a pena viver e lutar”, pois como corrobora a Graziella “a vontade de criar novos programas e retificar o que está mal [só] poderá surgir no espírito de cada um”.

    E não sejamos ingénuos, como salienta o Filipe, “o salto cognitivo, ético, espiritual e político, não será fácil para a sociedade”, mas mais gravosas serão as “consequências humanitárias da nossa inação”.

    Como sublinha o Mário “ou nos reconhecemos todas e todos humanos ou estamos destinados a um ‘descuido’ impensável, que de alienação em alienação nos vá soterrando enquanto Humanidade”. Fica o desafio: “iniciar um agir colectivo, cujo numérico não é o importante, mas sim o colocar em questão este modelo de Viver?”

    Ao bloqueio, à indiferença, ao medo, à incerteza, à apatia, à inércia há que contrapor a abertura, o cuidado, o optimismo, a esperança, a confiança e, principalmente, um coração convicto, que abrirá caminho ao agir cooperativo, em que “eu” acelerador se dilui no “nós”.

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