Existir implica coexistir…

(…) Quando se liga um carro não pensamos que estamos a danificar a Terra. Mas se multiplicarmos esse gesto por milhões acontece um acto colectivo de destruição ecológica. Da mesma forma, a perda dos corais não acontece apenas lá longe, na Austrália, mas também quando ligamos o ar condicionado. Está tudo conectado.

(…) Continuamos a pensar na “natureza” como se fosse algo essencialista que nos é exterior, negando as ambiguidades das formas de vida. Continuamos a pensar que estamos simplesmente a manipular outros seres num vácuo, como se fosse possível separar a “natureza” ou o “meio ambiente” do meio social. Mas como? Não podemos sequer atirar algo para o chão ou pelo cano sem que isso se vire contra nós, tal é a poluição prejudicial!

(…) Durante muito tempo os humanos viveram na ilusão de que poderiam controlar o planeta, as outras espécies e formas de vida.

(…) Desde há muito que é nítido que é necessário alterar a nossa relação com outras entidades do universo —  animais, vegetais, minerais ou outras — porque estamos a ameaçar formas de vida e até a nossa existência. Não podemos superar as nossas limitações ou a nossa dependência face a outros seres. Apenas podemos viver com eles. Os vírus não se eliminam. Vão e vêm. O que fica provado, mais uma vez, é que existir implica coexistir. Fundamentalmente somos seres simbióticos.

(…) Estamos há muito em guerra, mas contra a vida. Não podemos resolver a pandemia ou o aquecimento global se não retomarmos a inter-relação ecológica e não olharmos de forma séria para o modelo insustentável de habitar o planeta.

(…) O que parecia impossível começou a ser possível. Estamos a ficar conscientes que entrámos numa nova era. É como se tivéssemos tomado consciência que vivemos num planeta com outras formas de vida, ou que partilhamos coisas com outras pessoas. E partilhamos também as nossas vidas com as pessoas do futuro. Já não podemos apenas preocupar-nos com o que se vai passar na próxima semana. Ou só ter mil cuidados, como envergar máscaras e esse tipo de coisas, quando o nosso amigo mais próximo apanha o vírus. A atitude terá de ser outra. É pensar, agir e desejar cuidarmo-nos e cuidar de todos os outros seres humanos e não humanos com esse horizonte de futuro em mente. Não somos apenas nós que estamos em causa, mas os que virão a seguir. Este vírus está a fazer-nos um favor paradoxal, está a permitir que entremos numa nova estrutura de sentir, de forma a pensarmos mais além.

(…) A violência que infligimos ao planeta é a causa desta pandemia e outras por vir. A percepção antropocêntrica do mundo, que opera com base na capitalização de qualquer coisa viva, trouxe-nos aqui. É preciso abandonar a percepção de um mundo feito apenas para nós. Estamos vivos graças a outros organismos. Os vírus vão e vêm. Tanto os podemos controlar, como coabitar ou até aprender coisas com eles. (…) que o ser humano pode ser mais modesto e conectar-se com outros seres e formas de vida e ser mais solidário.

Acredito na acção. Às vezes passa apenas por persuadir politicamente os vizinhos. Pensar pequeno. Tomarmos consciência que somos parte das nossas ruas, das cidades e, sim, também do planeta. Todas estas coisas são verdadeiras e podem ser vividas. Conectarmo-nos emocionalmente a elas.

In, Revista Ípsilon, Público, 15 de Maio de 2020

https://www.publico.pt/2020/05/14/culturaipsilon/entrevista/timothy-morton-podemos-pandemias-tambem-futuro-diferente-vislumbramos-1916209

PARTILHA

# 1

Reconhecer o sistema de vida complexo e inteligente que habita nos outros seres vivos não humanos é algo que se situa além do querer e da vontade de compreensão e aceitação de uma maioria. A espécie humana ainda não se libertou do especismo que a considera superior a todos os outros seres vivos, subalternizando-os, submetendo-os despoticamente às suas mais variadas necessidades, caprichos e ambições. Não é inócua a expressão “exploração de recursos” quando se fala dos diferentes ecossistemas e da diversidade biológica que neles habita.

Essa coisificação dos outros seres vivos insere-se na visão antropocêntrica dominante que coloca o homo sapiens sapiens como referência máxima e absoluta de valores. Esta cosmovisão começa a ser contestada com maior veemência entre alguns círculos científicos e académicos, por activistas ambientais, por organizações não governamentais comprometidas na defesa do meio ambiente e por cidadãos eticamente comprometidos com a salvaguarda da biosfera.

Recentemente surgiu mesmo uma petição, endereçada ao secretário geral da ONU, no sentido de tornar o direito a um “ambiente natural saudável” como um direito humano básico, a consumar-se será o 31º direito da Declaração Universal dos Direitos Humanos. E isto num contexto em que as alterações climáticas contam-se já entre as ameaças directas aos direitos humanos. Em Janeiro foi notícia um parecer do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas que declara ser ilegal devolver aos seus países pessoas cujas vidas estejam ameaçada pelos efeitos das alterações climáticas, abrindo a possibilidade a uma futura protecção legal dos refugiados climáticos.

Efectivamente, a perda da biodiversidade, as alterações dos ecossistemas, os episódios meteorológicos extremos (secas, vagas de calor, cheias, tufões/furacões), a poluição do ar, a contaminação de solos e água, a acidificação do ambiente marinho e aumento de “zonas mortas” nos oceanos, constituem uma séria ameaça à produção e segurança alimentar, à saúde humana e à paz mundial.

Esta alteração de postura face à natureza e seres vivos não humanos assume uma carácter de urgência na salvaguarda e sustentabilidade do planeta e de todas as formas de vida, porém continua a padecer de um vício, insere-se numa perspectiva meramente instrumental. Isto é, tudo se centra na defesa do direito à vida, à segurança, ao bem-estar dos humanos, da sua integridade e dignidade. Ora isso não é, a meu ver, o que significa coexistir com a natureza e os outros seres vivos.

Coexistir com os outros seres vivos significa reconhecer juridicamente a sua dignidade e integridade, salvaguardar os seus direitos e garantias de bem-estar, segurança e conservação. Declarações como a Declaração de Cambridge (2012) que reconhece os animais não humanos como seres sencientes, capazes de sentir dor, desconforto, stress, angústia e sofrimento e também estados de consciência no caso dos mamíferos, aves e polvos ou, como no caso nacional, o estatuto jurídico dos animais, reconhecendo-os como seres dotados de sensibilidade e objecto de protecção jurídica, são avanços importantes mais ainda insuficientes.

Coexistir significa uma visão holística e não utilitarista dos outros seres vivos não humanos, significa reconhecer o seu valor intrínseco e dignidade, dotá-los de personalidade jurídica e, como tal, sujeitos de direitos. Significa coabitar com todos os que compõem a biosfera.

Ana Paula

# 2

Dizia a Bjork que a natureza te verga à humildade, isto porque ela vem de um sítio onde a natureza pode fazer com que não estejas cá amanhã.

Se alguma vez nos perguntamos sobre a fase final dessas externalidades, os “subprodutos” do consumo (vulgo lixo), quando pensamos “e agora?, o que é que eu faço com isto?” e achamos que o produtor daquilo que acabámos de consumir é o primeiro responsável pelo que sobra, dá-se uma constatação extraordinária: é que o produtor anda a ganhar a vida a destruir a vida. E que se assim é, não devia ser.

Quando a natureza sofre não é necessariamente quando a natureza nos dói. A isto aludi quando falei na histerese. Está calculado em mais de mil anos (ou 5 mil, a memória do que li já se foi) o tempo que demora toda a água do mundo a renovar-se. Ou seja, todas as massas da hidrosfera a terem novamente a água, a mesma água, que por elas passou num dado momento.

Todos os aquíferos, lagos, rios, mares estão numa corrida que ao longo do seu percurso até ao ponto de partida têm vindo a acumular as porcarias que lhe temos injectado. Como dizia o céptico que ia a cair do prédio de 20 andares: “Até aqui tudo bem.”

Uma parte de mim sabe que temos poder de recusar alimentar o erro. Outra parte de mim sabe que não temos todo o poder dessa recusa. Outra parte de mim não acredita numa mudança grande sem pequenas mudanças. E outra parte de mim não acredita nas pequenas mudanças. Não adianta pôr as nossas crianças a fazer brinquedos ou espantalhos com garrafas de plástico vazias. É diversão, é paliativo. E isto é tudo menos uma brincadeira. 

O tempo da consciencialização é, então, nesta altura do campeonato, o tempo do refluxo, em que a natureza começa a ripostar. O tempo do prazer, da acção não-consciente, começa a dar lugar, ao tempo do sofrimento e da acção mais consciente. Mais, queremos mais. Mais acção, mais consciente. E, para acabar em linguagem guerreira, liberdade ou morte. 

Eduardo

# 3

Estamos há muito em guerra, mas contra a vida”.

Esta asserção do filósofo Timothy Bloxam Morton merece, pela sua grandeza expressiva da verdade que encerra, ser complementada: Estamos há muito em guerra, mas contra a vida. E nós, os humanos, vamos perder…

Poderá julgar-se derrotista o que a seguir se colou às palavras de Morton. Poderá parecer, mesmo, um desalento de alma ou a desistência pelo desejo de existir – Existir implica coexistir (é este precisamente o tema desta primeira tertúlia de Junho). Mas não, não o é. Deseja-se que se torne um grito de guerra lançado à nossa ilusão de que nos é possível sujeitar o planeta, como refere o filósofo norte-americano na entrevista ao PÚBLICO.

Há algum tempo, Morton já escrevera o seguinte:

“Colocar algo chamado Natureza num pedestal e admirá-lo de longe, faz pelo meio ambiente o que o patriarcado faz pela figura da Mulher. É um ato paradoxal de admiração sádica.”

Poderemos encontrar aqui como que o cerne da temática desta nossa tertúlia: eu, tu, nós ou eles não existimos fora da natureza. Não; este modo de realizar, em pensamento e decisões, o nosso Viver é completamente extemporâneo, porque desprovido de REALIDADE. A REALIDADE é que as sociedades humanas do planeta integram, naturalmente, as restantes sociedades de elementos constitutivos do planeta. E, por isso mesmo, do Universo, seja este o que for…

Então, como coexistir? Porque, SIMPLESMENTE, jamais qualquer componente do que chamamos de Natureza conseguiu, ou consegue, viver per si e para si, somente. Esta é a REALIDADE da Existência. Do Tudo e do Todo que Existe…

Nós, humanos, desejamos continuar a manter esta “guerra de morte”, ou iremos começar, no mais íntimo da nossa existência e dos nossos quotidianos, lançar à nossa consciência um grito de guerra, de modo a dar início a uma (re)construção da nossa humanidade? Da nossa coexistência com esta Terra?

PS – apesar de divergências entre especialistas, a etimologia da palavra humano parece conceder de modo mais convincente o que diversos autores defendem: o termo latino humus, significa «chão», «terra» (ver: An Etymological Dictionary of the Latin Language, A. J. Valpy, 1828, de Francis Valpy).

Mário

O porquê da vida…

“Na sua maioria, as pessoas trabalham tanto que nem têm tempo para estar com os entes queridos, pelo que se sentem isoladas. Na realidade, não acreditam no trabalho que fazem, por isso sentem-se corrompidas. O patrão não precisa das suas capacidades mais criativas, por isso não se sentem realizadas. Têm um reduzido relacionamento com algo mais vasto, por isso não encontram um significado para as coisas.

Aqueles que têm a sorte de ser devidamente recompensados por estes sacrifícios, são distraídos por brinquedos dispendiosos e aventuras – carros potentes, barcos, ecrãs de plasma e viagens de avião à volta do mundo. Porém, não obstante os prémios de consolação nos apartarem temporariamente da nossa insatisfação, na realidade, nunca a eliminam.

(…) para além de muitos de nós estarem a perceber que andamos a desperdiçar anos a trabalhar para manter um modo de vida de que, na realidade, não gostamos, estamos a começar a compreender (espero) que este modo de vida está a destruir o planeta. (…) Achava que não podia fazer nada em relação aos problemas com que o mundo se deparava. Afinal de contas, se o governo não estava a fazer nada, o que poderia eu fazer?  (…) Mas era mesmo isso que eu queria para mim? Era isso que estava disposto a aceitar? Que poderia encontrar-me num estado de desespero e não fazer absolutamente nada? Estaria mesmo a atingir o limite juntamente com o estado do mundo? Ou estaria a atingir o limite com o meu estado de impotência imposto a mim mesmo?

(…) O meu problema era a minha inércia. Estava preocupadíssimo com uma situação, e não mexia uma palha em relação a isso. Eu não estava farto do mundo. Estava farto de mim mesmo. Estava farto da minha confortável e condescendente pretensão de impotência. (…) É verdade que um tipo como eu não pode fazer a diferença? Ou serei simplesmente demasiado preguiçoso ou receoso para tentar?”

In, Beaven, Colin (2009). Impacto Zero. As aventuras de um cidadão comum que tenta salvar o planeta e aprende muito sobre si próprio e o nosso estilo de vida. Carnaxide: Objectiva Editora, pp.21-23.

“O que significa homem? Contador de histórias, criador de mitos e destruidor do mundo vivo. Pensa, com atropelo, razão, emoção e religião. Feliz acaso de evolução primata durante o Plistoceno tardio. Cérebro da biosfera. Grandioso na capacidade imaginativa e no impulso exploratório, porém, desejoso de ser mais amo do que servo de um planeta em declínio. Nascido com capacidade para sobreviver e evoluir para sempre, capaz de tornar a biosfera igualmente eterna. Todavia, arrogante, imprudente, fatalmente predisposto a favorecer os próprios interesses, a tribo e futuros a curto prazo. Obsequioso para com as entidades imaginárias, desdenhoso para com as vidas inferiores.”

In, Wilson, Edward O. (2019). Da Terra Metade. Porto: Arte e Ciência, p. 21.

“O ‘porquê da vida’ assume para cada ser humano uma forma diferente e individual. (…) E nem sempre é fácil conseguir identificar a sua própria força motriz, que além do mais se pode alterar consoante o período da vida que se atravessa. No entanto, vale a pena manter um olhar atento, pois é isso que, em situações de crise, nos ajuda a manter a cabeça à tona de água.”

In, Schnabel, Ulrich (2020). Confia. Alfragide: Lua de Papel, p.25.

Partilhas

# 1

Hoje e, nos últimos meses, confronto-me muitas vezes com a questão “O ‘porquê’ da vida?”.

Sim, o que faço aqui, o que fazemos, para onde quero caminhar, para onde queremos caminhar.

Este tempo de pandemia tem sido um tempo de reflexão e introspeção sobre a nossa vida, a vida de cada um, sobre o nosso lugar neste Planeta único em beleza e recursos, que estou, estamos, a destruir.

Este é o momento em que o Planeta me interpela, nos interpela a parar e mudar, a fazer diferente, a fazer de novo. A fazer um novo com paz, solidariedade, justiça, saúde, educação, cultura, trabalho, equidade, consumo sustentável e beleza para toda humanidade!

Deixemo-nos tocar pela sua interpelação, deixemo-nos mudar e deixemo-nos ir a onde, até agora, nunca nos deixamos!

Abracemos esta oportunidade, que pode ser única, pode ser a última, e avancemos unidos, com fé e esperança num futuro melhor para todos!

Márcia

# 2

À falta de uma resposta satisfatória, sabermos o porquê vive de sabermos o para quê. 

A extraordinária capacidade humana materializada na técnica, na ciência e nas ideias coexiste com limitações que agem como atrito, turbulência ou um qualquer outro nivelamento universal. Que nivela por baixo, que puxa para baixo.

À partida, enuncio três:

A racionalidade limitada: a acção assenta (quando…) na informação de que dispomos. 

O pensamento linear: a dificuldade em pensar, por exemplo, em termos geométricos.

A histerese: o desfasamento (temporal, sobretudo) entre causas e consequências.

Em sociedades fragmentadas, a várias velocidades, com a pirâmide dos valores completamente baralhada, os meios para o debate são inquinados e as discussões abortadas. E eis que todas, fragmentadas ou não, são obrigadas a acertar o passo. Confrontadas com “e ses” saramaguianos.  

O conflito entre indivíduo e colectivo está no mesmo plano daqueloutro entre curto e longo prazo. Saber pensar e agir em conformidade consoante as exigências de cada momento poderia ser uma definição do homem: O que busca o progresso. 

Aquilo que Saramago propunha no Ensaio Sobre a Lucidez, para lá do debate, era ousar o impossível. Criar uma nova realidade, começar algum começo, superar limitações, transformarmo-nos a nós próprios. 

Era darmos o primeiro passo, o mais difícil, descobrirmos até onde chega a nossa acção individual, concertada, e quais as suas reais consequências. Para só depois descobrirmos as acções que nos escapam e que só colectivamente podem ser tomadas. 

O homem deixar de ser um fim em si mesmo poderia distingui-lo verdadeiramente das outras manifestações de vida. 

Eduardo

# 3

O porquê da vida? Questão de natureza metafísica, e como tal, desafiante e complexa, que, em muitos de nós, a dada etapa da nossa vida, irrompe de forma intrusiva, ameaçando o frágil equilíbrio em que estruturámos o nosso viver. E à medida que se vai enraizando, obriga-nos a sair do torpor em que, muitas vezes, nos deixamos cair, e a reflectir sobre as nossas opções e estilos de vida, os caminhos que deixámos de seguir, os sonhos que sufocámos, os desafios que não abraçámos, as vidas que não chegámos a viver. Em suma, a ponderar as razões e motivações presentes e futuras para o nosso acordar diário até ao adormecer final.

A procura de respostas impõe-se. Há quem procure num sistema religioso ou numa corrente filosófica, na poesia existencial, nos livros de auto-ajuda que pululam no mercado livreiro, na ajuda profissional, no suporte medicamentoso, …,  pois, como desabafa Fernando Pessoa, na Passagem das Horas, “não sei se a vida é pouco ou demais para mim”, apenas que “a vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger”. E essa é a dor que queremos acalmar. Na procura exógena de respostas poderemos encontrar respostas parcelares. Essa resposta fragmentada pode atenuar a tensão e ser suficiente para prosseguir.

Contudo, a dado momento, percebemos que as respostas são essencialmente de natureza íntima. Os pilares em torno dos quais estruturámos o nosso viver ameaçam não resistir à compressão quotidiana. Impõe-se uma pausa, uma mudança, um “tomar das rédeas”, ou, em alternativa, nos resignamos a um lento definhar

Uma introspecção honesta e leal não é fácil. Acarreta dor, pois obriga a revisitarmos memórias, acontecimentos e medos anestesiados no tempo, a avaliar escolhas e percursos feitos, a nos despojar dos constructos que suportam o nosso ego, a sermos humildes, a nos reencontrarmos com a nossa essência, a nos compreendermos e, sobretudo, a nos perdoarmos.

No decurso desse processo uma estranha lucidez, um sentimento de liberdade e de despojamento emerge. Libertamos o lastro do efémero e do acessório, compreendemos que “menos significa mais”. Nesse impulso vital experienciamos o nosso propósito de vida, pessoal e intransmissível, o rumo na relação connosco, com as outras pessoas e com os outros seres vivos, e o desejo vivido de contribuir para um todo maior.

Ana Paula

# 4

O paradigma da mudança não é fácil de estabelecer, de tal forma que atualmente o que se nos impõe é restabelecer a economia, sair de casa voltar a trabalhar e voltar a consumir.

Estivemos confinados e o planeta agradeceu, mas a sociedade (este sistema humano) assente na economia não nos permite continuar assim. Quebrar a cadeia de consumo de forma abrupta é tornar os pobres mais pobres – são eles os primeiros a sentir o impacto da mudança.

Antes deste vírus já existia movimentos “desperdício zero” e a necessidade de tonarmo-nos consumidores mais consciente, reduzir o consumo, tomar algumas iniciativas mais ecológicas. O que se traduz em consumir menos, porque não precisamos de grande parte daquilo que temos, e isso viu-se nestes últimos dois meses em que a maioria da população só fez deslocações essenciais, só comprou bens alimentares – e esses não os terá desperdiçado – porque estar mais tempo em casa permite-nos organizar melhor o dia-a-dia, aproveitar e re-aproveitar mais, desperdiçar menos.

Afinal o mundo sofre, não de um vírus, mas pela presença humana que se apoderou dele, ocupando-o e consumindo-o de forma descontrolada com base num sistema económico que só serve a esta espécie e a mais nenhuma outra, ( não serenos somos nós que estamos a mais?)… e nos comportamo-nos como se o mundo fosse só nosso!

Elsa

# 5

“Enquanto lia os textos, passava-me pela cabeça do quão dependente é o nosso conjunto de valores – de felicidade, de justiça, morais, estéticos – de entidades superiores. Estas entidades superiores, podem assumir diferentes contornos, consoante o nosso enraizamento religioso, a nossa educação, ou uma variedade de factores que considero difícil de enumerar. Porque é que acreditamos, naquilo que acreditamos?

 No entanto, e apesar da nossa individualidade, é possível reconhecer padrões comportamentais, que espelham essa alienação, em prol da crença em algo… As palavras de Wilson “Obsequioso para com as entidades imaginárias, desdenhoso para com as vidas inferiores.” são ásperas mas certeiras, pois espelham a forma com que nos regemos por ideais, imagens, lugares, inventados por nós, e intransponíveis por outros e, por isso talvez, sempre maiores que outros.

As nossas crenças condicionam quem somos e como observamos o próximo, pois dificilmente assumimos o compromisso de nos despirmos das mesmas, e considerarmos “igual” quem não partilha dos nossos valores.

Esta tribalização gera uma propagação de “bolha” social, o conforto de estarmos entre os que acreditamos serem “os nossos”, a necessidade do aparente ser social, um instinto incontrolável, que se traduz hoje numa indústria que prolifera com o estudo e previsão do nosso comportamento.

Talvez tenha levado o meu raciocínio para longe do tema proposto e do “porquê” da vida; certamente o terei feito, também eu, escravo das minhas crenças.

Filipe

# 6

Em quantas situações preferimos andar às voltas com as fragilidades e as derrapagens do Viver? (…) A sombra do medo não germina de uma qualquer contingência, mas essencialmente por ausência (ou escassez) de uma perseverante confiança em nós mesmos (…). Atrevendo-nos a reconhecer e a identificar o(s) nosso(s) medo(s) no espaço mais “medular” do nosso coração, percorreremos o felicitante caminho para uma existência transparente.

Estas palavras pertencem ao capítulo “do medo”, de um livrinho do grão de mostarda, titulado Da Arte do Viver – na senda da serenidade, escrito e publicado em 2018. Então, o que nos convocava era a preocupação pelo rumo que sentíamos estar a tomar, pouco a pouco, a consciência da grande maioria das mulheres e homens deste país. Um contentamento eufórico, e por isso ilusório e inconsistente, resultante de uma conjuntura de promessas feitas pela equipa governativa e que era, igualmente, transversal a um significativo número de intervenientes do sector económico e mesmo empresarial.

Assim, às tantas, a reflexão ultrapassa barreiras e inicia um percurso em direcção a razões primeiras da existência humana. Ou seja, estaremos conscientes do que nos convoca, cada dia que acordamos? Porque seguimos por ali e não por outro rumo? Que razoabilidade existe nas pretensões que colocamos em cada decisão, em cada atitude; quer seja connosco próprios ou nas intrincadas relações por que é formado o nosso quotidiano…

Porquê Viver? ou Para quê Viver? Ambas as perguntas não definem o mesmo, mas uma resposta é comum a ambas: necessitamos de uma autêntica atitude de perseverante confiança em nós mesmos. Fácil de afirmar, em texto corrido ou em conversa de sobremesa; difícil é discernir, identificar, e ir resolvendo através da morte dos nossos medos. Aquilo que nos condiciona nos momentos de decisão, de assumir uma atitude em colectivo, de rejeitar uma inconsistência vital, ou mesmo de enformar uma consciência ao arrepio da banalidade corrente, é o MEDO!

É o MEDO, desde a infância, o que nos atrofia a Razão e a Consciência; é o MEDO que nos impede de participar “numa praça de gente madura” onde pontifica “uma estátua de febre à arder” (José Afonso).

Mário