O porquê da vida…

“Na sua maioria, as pessoas trabalham tanto que nem têm tempo para estar com os entes queridos, pelo que se sentem isoladas. Na realidade, não acreditam no trabalho que fazem, por isso sentem-se corrompidas. O patrão não precisa das suas capacidades mais criativas, por isso não se sentem realizadas. Têm um reduzido relacionamento com algo mais vasto, por isso não encontram um significado para as coisas.

Aqueles que têm a sorte de ser devidamente recompensados por estes sacrifícios, são distraídos por brinquedos dispendiosos e aventuras – carros potentes, barcos, ecrãs de plasma e viagens de avião à volta do mundo. Porém, não obstante os prémios de consolação nos apartarem temporariamente da nossa insatisfação, na realidade, nunca a eliminam.

(…) para além de muitos de nós estarem a perceber que andamos a desperdiçar anos a trabalhar para manter um modo de vida de que, na realidade, não gostamos, estamos a começar a compreender (espero) que este modo de vida está a destruir o planeta. (…) Achava que não podia fazer nada em relação aos problemas com que o mundo se deparava. Afinal de contas, se o governo não estava a fazer nada, o que poderia eu fazer?  (…) Mas era mesmo isso que eu queria para mim? Era isso que estava disposto a aceitar? Que poderia encontrar-me num estado de desespero e não fazer absolutamente nada? Estaria mesmo a atingir o limite juntamente com o estado do mundo? Ou estaria a atingir o limite com o meu estado de impotência imposto a mim mesmo?

(…) O meu problema era a minha inércia. Estava preocupadíssimo com uma situação, e não mexia uma palha em relação a isso. Eu não estava farto do mundo. Estava farto de mim mesmo. Estava farto da minha confortável e condescendente pretensão de impotência. (…) É verdade que um tipo como eu não pode fazer a diferença? Ou serei simplesmente demasiado preguiçoso ou receoso para tentar?”

In, Beaven, Colin (2009). Impacto Zero. As aventuras de um cidadão comum que tenta salvar o planeta e aprende muito sobre si próprio e o nosso estilo de vida. Carnaxide: Objectiva Editora, pp.21-23.

“O que significa homem? Contador de histórias, criador de mitos e destruidor do mundo vivo. Pensa, com atropelo, razão, emoção e religião. Feliz acaso de evolução primata durante o Plistoceno tardio. Cérebro da biosfera. Grandioso na capacidade imaginativa e no impulso exploratório, porém, desejoso de ser mais amo do que servo de um planeta em declínio. Nascido com capacidade para sobreviver e evoluir para sempre, capaz de tornar a biosfera igualmente eterna. Todavia, arrogante, imprudente, fatalmente predisposto a favorecer os próprios interesses, a tribo e futuros a curto prazo. Obsequioso para com as entidades imaginárias, desdenhoso para com as vidas inferiores.”

In, Wilson, Edward O. (2019). Da Terra Metade. Porto: Arte e Ciência, p. 21.

“O ‘porquê da vida’ assume para cada ser humano uma forma diferente e individual. (…) E nem sempre é fácil conseguir identificar a sua própria força motriz, que além do mais se pode alterar consoante o período da vida que se atravessa. No entanto, vale a pena manter um olhar atento, pois é isso que, em situações de crise, nos ajuda a manter a cabeça à tona de água.”

In, Schnabel, Ulrich (2020). Confia. Alfragide: Lua de Papel, p.25.

Partilhas

# 1

Hoje e, nos últimos meses, confronto-me muitas vezes com a questão “O ‘porquê’ da vida?”.

Sim, o que faço aqui, o que fazemos, para onde quero caminhar, para onde queremos caminhar.

Este tempo de pandemia tem sido um tempo de reflexão e introspeção sobre a nossa vida, a vida de cada um, sobre o nosso lugar neste Planeta único em beleza e recursos, que estou, estamos, a destruir.

Este é o momento em que o Planeta me interpela, nos interpela a parar e mudar, a fazer diferente, a fazer de novo. A fazer um novo com paz, solidariedade, justiça, saúde, educação, cultura, trabalho, equidade, consumo sustentável e beleza para toda humanidade!

Deixemo-nos tocar pela sua interpelação, deixemo-nos mudar e deixemo-nos ir a onde, até agora, nunca nos deixamos!

Abracemos esta oportunidade, que pode ser única, pode ser a última, e avancemos unidos, com fé e esperança num futuro melhor para todos!

Márcia

# 2

À falta de uma resposta satisfatória, sabermos o porquê vive de sabermos o para quê. 

A extraordinária capacidade humana materializada na técnica, na ciência e nas ideias coexiste com limitações que agem como atrito, turbulência ou um qualquer outro nivelamento universal. Que nivela por baixo, que puxa para baixo.

À partida, enuncio três:

A racionalidade limitada: a acção assenta (quando…) na informação de que dispomos. 

O pensamento linear: a dificuldade em pensar, por exemplo, em termos geométricos.

A histerese: o desfasamento (temporal, sobretudo) entre causas e consequências.

Em sociedades fragmentadas, a várias velocidades, com a pirâmide dos valores completamente baralhada, os meios para o debate são inquinados e as discussões abortadas. E eis que todas, fragmentadas ou não, são obrigadas a acertar o passo. Confrontadas com “e ses” saramaguianos.  

O conflito entre indivíduo e colectivo está no mesmo plano daqueloutro entre curto e longo prazo. Saber pensar e agir em conformidade consoante as exigências de cada momento poderia ser uma definição do homem: O que busca o progresso. 

Aquilo que Saramago propunha no Ensaio Sobre a Lucidez, para lá do debate, era ousar o impossível. Criar uma nova realidade, começar algum começo, superar limitações, transformarmo-nos a nós próprios. 

Era darmos o primeiro passo, o mais difícil, descobrirmos até onde chega a nossa acção individual, concertada, e quais as suas reais consequências. Para só depois descobrirmos as acções que nos escapam e que só colectivamente podem ser tomadas. 

O homem deixar de ser um fim em si mesmo poderia distingui-lo verdadeiramente das outras manifestações de vida. 

Eduardo

# 3

O porquê da vida? Questão de natureza metafísica, e como tal, desafiante e complexa, que, em muitos de nós, a dada etapa da nossa vida, irrompe de forma intrusiva, ameaçando o frágil equilíbrio em que estruturámos o nosso viver. E à medida que se vai enraizando, obriga-nos a sair do torpor em que, muitas vezes, nos deixamos cair, e a reflectir sobre as nossas opções e estilos de vida, os caminhos que deixámos de seguir, os sonhos que sufocámos, os desafios que não abraçámos, as vidas que não chegámos a viver. Em suma, a ponderar as razões e motivações presentes e futuras para o nosso acordar diário até ao adormecer final.

A procura de respostas impõe-se. Há quem procure num sistema religioso ou numa corrente filosófica, na poesia existencial, nos livros de auto-ajuda que pululam no mercado livreiro, na ajuda profissional, no suporte medicamentoso, …,  pois, como desabafa Fernando Pessoa, na Passagem das Horas, “não sei se a vida é pouco ou demais para mim”, apenas que “a vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger”. E essa é a dor que queremos acalmar. Na procura exógena de respostas poderemos encontrar respostas parcelares. Essa resposta fragmentada pode atenuar a tensão e ser suficiente para prosseguir.

Contudo, a dado momento, percebemos que as respostas são essencialmente de natureza íntima. Os pilares em torno dos quais estruturámos o nosso viver ameaçam não resistir à compressão quotidiana. Impõe-se uma pausa, uma mudança, um “tomar das rédeas”, ou, em alternativa, nos resignamos a um lento definhar

Uma introspecção honesta e leal não é fácil. Acarreta dor, pois obriga a revisitarmos memórias, acontecimentos e medos anestesiados no tempo, a avaliar escolhas e percursos feitos, a nos despojar dos constructos que suportam o nosso ego, a sermos humildes, a nos reencontrarmos com a nossa essência, a nos compreendermos e, sobretudo, a nos perdoarmos.

No decurso desse processo uma estranha lucidez, um sentimento de liberdade e de despojamento emerge. Libertamos o lastro do efémero e do acessório, compreendemos que “menos significa mais”. Nesse impulso vital experienciamos o nosso propósito de vida, pessoal e intransmissível, o rumo na relação connosco, com as outras pessoas e com os outros seres vivos, e o desejo vivido de contribuir para um todo maior.

Ana Paula

# 4

O paradigma da mudança não é fácil de estabelecer, de tal forma que atualmente o que se nos impõe é restabelecer a economia, sair de casa voltar a trabalhar e voltar a consumir.

Estivemos confinados e o planeta agradeceu, mas a sociedade (este sistema humano) assente na economia não nos permite continuar assim. Quebrar a cadeia de consumo de forma abrupta é tornar os pobres mais pobres – são eles os primeiros a sentir o impacto da mudança.

Antes deste vírus já existia movimentos “desperdício zero” e a necessidade de tonarmo-nos consumidores mais consciente, reduzir o consumo, tomar algumas iniciativas mais ecológicas. O que se traduz em consumir menos, porque não precisamos de grande parte daquilo que temos, e isso viu-se nestes últimos dois meses em que a maioria da população só fez deslocações essenciais, só comprou bens alimentares – e esses não os terá desperdiçado – porque estar mais tempo em casa permite-nos organizar melhor o dia-a-dia, aproveitar e re-aproveitar mais, desperdiçar menos.

Afinal o mundo sofre, não de um vírus, mas pela presença humana que se apoderou dele, ocupando-o e consumindo-o de forma descontrolada com base num sistema económico que só serve a esta espécie e a mais nenhuma outra, ( não serenos somos nós que estamos a mais?)… e nos comportamo-nos como se o mundo fosse só nosso!

Elsa

# 5

“Enquanto lia os textos, passava-me pela cabeça do quão dependente é o nosso conjunto de valores – de felicidade, de justiça, morais, estéticos – de entidades superiores. Estas entidades superiores, podem assumir diferentes contornos, consoante o nosso enraizamento religioso, a nossa educação, ou uma variedade de factores que considero difícil de enumerar. Porque é que acreditamos, naquilo que acreditamos?

 No entanto, e apesar da nossa individualidade, é possível reconhecer padrões comportamentais, que espelham essa alienação, em prol da crença em algo… As palavras de Wilson “Obsequioso para com as entidades imaginárias, desdenhoso para com as vidas inferiores.” são ásperas mas certeiras, pois espelham a forma com que nos regemos por ideais, imagens, lugares, inventados por nós, e intransponíveis por outros e, por isso talvez, sempre maiores que outros.

As nossas crenças condicionam quem somos e como observamos o próximo, pois dificilmente assumimos o compromisso de nos despirmos das mesmas, e considerarmos “igual” quem não partilha dos nossos valores.

Esta tribalização gera uma propagação de “bolha” social, o conforto de estarmos entre os que acreditamos serem “os nossos”, a necessidade do aparente ser social, um instinto incontrolável, que se traduz hoje numa indústria que prolifera com o estudo e previsão do nosso comportamento.

Talvez tenha levado o meu raciocínio para longe do tema proposto e do “porquê” da vida; certamente o terei feito, também eu, escravo das minhas crenças.

Filipe

# 6

Em quantas situações preferimos andar às voltas com as fragilidades e as derrapagens do Viver? (…) A sombra do medo não germina de uma qualquer contingência, mas essencialmente por ausência (ou escassez) de uma perseverante confiança em nós mesmos (…). Atrevendo-nos a reconhecer e a identificar o(s) nosso(s) medo(s) no espaço mais “medular” do nosso coração, percorreremos o felicitante caminho para uma existência transparente.

Estas palavras pertencem ao capítulo “do medo”, de um livrinho do grão de mostarda, titulado Da Arte do Viver – na senda da serenidade, escrito e publicado em 2018. Então, o que nos convocava era a preocupação pelo rumo que sentíamos estar a tomar, pouco a pouco, a consciência da grande maioria das mulheres e homens deste país. Um contentamento eufórico, e por isso ilusório e inconsistente, resultante de uma conjuntura de promessas feitas pela equipa governativa e que era, igualmente, transversal a um significativo número de intervenientes do sector económico e mesmo empresarial.

Assim, às tantas, a reflexão ultrapassa barreiras e inicia um percurso em direcção a razões primeiras da existência humana. Ou seja, estaremos conscientes do que nos convoca, cada dia que acordamos? Porque seguimos por ali e não por outro rumo? Que razoabilidade existe nas pretensões que colocamos em cada decisão, em cada atitude; quer seja connosco próprios ou nas intrincadas relações por que é formado o nosso quotidiano…

Porquê Viver? ou Para quê Viver? Ambas as perguntas não definem o mesmo, mas uma resposta é comum a ambas: necessitamos de uma autêntica atitude de perseverante confiança em nós mesmos. Fácil de afirmar, em texto corrido ou em conversa de sobremesa; difícil é discernir, identificar, e ir resolvendo através da morte dos nossos medos. Aquilo que nos condiciona nos momentos de decisão, de assumir uma atitude em colectivo, de rejeitar uma inconsistência vital, ou mesmo de enformar uma consciência ao arrepio da banalidade corrente, é o MEDO!

É o MEDO, desde a infância, o que nos atrofia a Razão e a Consciência; é o MEDO que nos impede de participar “numa praça de gente madura” onde pontifica “uma estátua de febre à arder” (José Afonso).

Mário

Um comentário em “O porquê da vida…”

  1. O Porquê da Vida suscitou em cada um de nós uma análise pautada pelo questionamento pessoal: “o que faço aqui, o que fazemos, para onde quero caminhar, para onde queremos caminhar” (Márcia), pois o “porquê vive de sabermos o para quê” (Eduardo).
    Ambas as interrogações “Porquê Viver? ou Para quê Viver? (…) não definem o mesmo, mas uma resposta é comum a ambas: necessitamos de uma autêntica atitude de perseverante confiança em nós mesmos” (Mário). De “ponderar as razões e motivações presentes e futuras para o nosso acordar diário até ao adormecer final” (Ana Paula).
    Contudo, as “nossas crenças condicionam quem somos e como observamos o próximo, pois dificilmente assumimos o compromisso de nos despirmos das mesmas, e considerarmos “igual” quem não partilha dos nossos valores” (Filipe).
    E, cumulativamente, o “paradigma da mudança não é fácil de estabelecer, de tal forma que atualmente o que se nos impõe é restabelecer a economia, sair de casa voltar a trabalhar e voltar a consumir” (Elsa). Acresce que a “tribalização gera uma propagação de ‘bolha’ social, o conforto de estarmos entre os que acreditamos serem ‘os nossos’, a necessidade do aparente ser social, um instinto incontrolável, que se traduz hoje numa indústria que prolifera com o estudo e previsão do nosso comportamento” (Filipe).
    São pois numerosos os constrangimentos pessoais, societais e de contexto. Embora “aquilo que nos condiciona nos momentos de decisão, de assumir uma atitude em colectivo, de rejeitar uma inconsistência vital, ou mesmo de enformar uma consciência ao arrepio da banalidade corrente, é o MEDO!” (Mário)
    E, consequentemente, “o mundo sofre, não de um vírus, mas pela presença humana que se apoderou dele, ocupando-o e consumindo-o de forma descontrolada com base num sistema económico que só serve a esta espécie e a mais nenhuma outra (…) e nos comportamo-nos como se o mundo fosse só nosso” (Elsa).
    Nesta saga somos convocados a abandonar “o pensamento linear”, a pensar “em termos geométricos, a criar uma nova realidade, começar algum começo, superar limitações, transformarmo-nos a nós próprios” (Eduardo).
    “Este é o momento em que o Planeta me interpela, nos interpela a parar e mudar, a fazer diferente, a fazer de novo” (Márcia). “Nesse impulso vital experienciamos o nosso propósito de vida, pessoal e intransmissível, o rumo na relação connosco, com as outras pessoas e com os outros seres vivos, e o desejo vivido de contribuir para um todo maior” (Ana Paula).

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