Chegou o momento…

De estabelecermos em conjunto as bases de um novo mundo,

De transformar o medo em esperança,

De pensar de modo mais lúcido,

De estabelecer um horizonte comum.

De não sacrificar o futuro no presente,

De resistir ao nosso destino,

De não permitir que o futuro decida por nós,

De deixar de nos enganarmos,

De recuperar a generosidade,

De sermos resilientes,

De cuidarmos do nosso Planeta.

De analisarmos as causas de todas as crises,

De compreendermos que a crise sanitária, ecológica, climática, social e económica que enfrentamos resumem-se a uma única crise: uma crise de excessos.

De ouvir os jovens e aprender com os mais idosos,

De unir,

De cooperar,

De celebrar a vida,

De honrar a beleza da vida,

De lembrar a fragilidade da vida.

De celebrar a paz com a natureza,

De respeitar a diversidade e integridade de todas as formas de vida,

De devolver território à vida selvagem,

De ter em consideração os direitos dos animais.

De reconhecer a diversidade humana,

De ouvir os povos indígenas,

De aceitar as nossas diferenças.

De compreender que a espécie humana e todas as outras formas de vida partilham um mesmo destino.

De reconhecer a nossa vulnerabilidade,

De aprender com os nosso erros,

De fazer um balanço quanto às nossas realizações e aos nossos excessos,

De respeitar limites.

De uma mudança de paradigma,

De transformar o nosso sistema obsoleto,

De redefinir os fins e os meios,

De conferir um novo significado ao progresso.

De sermos compreensivos e exigentes,

De nos libertarmos dos dogmas,

De nos entendermos.

De uma globalização que partilhe e coopere com os mais frágeis,

De substituir o comércio livre pelo comércio justo,

De globalizar o que é justo e erradicar o que é prejudicial.

De definir, defender e proteger o que é comum,

De uma solidariedade universal,

De uma cultura de transparência e de responsabilização.

De uma economia redistributiva,

De acabar com a desregulação dos mercados, a especulação financeira e a evasão fiscal,

De perdoar as dívidas dos países mais pobres.

De nos emanciparmos da política partidária,

De nos libertarmos de ideologias estéreis,

De construirmos democracias inclusivas.

De nos deixarmos inspirar e adoptarmos o principio do cuidado,

De incluir os princípios ambientais, sociais e civilizacionais na legislação que regem as politicas públicas.

De reconhecer a falácia do determinismo social,

De ultrapassar o fosso da desigualdade social,

De igualdade entre mulheres e homens,

De dar voz aos humildes e aos invisíveis.

De homenagear e agradecer aos imigrantes que laboram nos nossos países.

De valorizar todas as profissões que tornam a vida possível,

De criar empregos para uma economia social e solidária.

De isentar os serviços públicos da engenharia financeira,

De localizar amplos sectores da economia,

De coerentemente redireccionar investimentos e actividades para sectores úteis e não prejudiciais.

De incutir nas crianças e nos jovens o dever cívico, o respeito pela Terra e a cooperação entre todos.

De estabelecer limites,

De sermos sóbrios,

De aprender a viver de modo simples,

De recuperar a alegria,

De nos libertamos dos nossos vícios consumistas.

De abrandar,

De viajar menos,

De nos libertarmos dos constrangimentos mentais, individuais e colectivos,

De simplificar,

De distinguir o essencial do acessório,

De efectuar escolhas.

De renunciar ao que ameaça o nosso futuro,

De criar impacto positivo,

De criar ligações entre o nosso destino individual e comum,

De acreditar no outro,

De rever os nossos preconceitos.

De perceber que nem tudo é negro ou branco,

De aceitar a complexidade,

De harmonizar ciência e consciência.

De união,

De humildade,

De generosidade,

De empatia,

De respeito pela dignidade para todos.

De declarar o racismo o pior tipo de poluição mental.

De sermos justos e benevolentes.

De ultrapassar de modo ambicioso o fosso entre as palavras e as acções.

De todos fazerem a sua parte e se tornarem arquitectos de um amanhã.

De compromisso,

De acreditar que um outro mundo é possível,

De abertura a novos caminhos.

Com estes princípios em mente escolheremos e encorajemos quem nos lidera.

Por todos os seres vivos, partilhemos estes princípios a fim de criar uma consciência global.

In, The time has come… (https://time-has-come.org/100-principles)

Partilhas

# 1

Chegou o momento… e não o devemos desperdiçar sob pena de comprometermos o nosso futuro a curto e médio prazos. Optar por ignorar ostensivamente os perigos e ameaças que enfrentamos, seja em virtude dos nossos desmandos passados e presentes face à natureza, ou do esfumar do humanismo patente na indiferença perante a injustiça social, os conflitos bélicos, a pobreza extrema, a exploração laboral, …, ou face à retracção dos direitos humanos e das democracias com a chegada ao poder de líderes sem ética nem visão de futuro, quer ainda com a insistência  num sistema económico cujo modelo de crescimento se esgotou, …, é abrir caminho ao desastre comum.

Cada um de nós tem um papel a desempenhar. A resignação fortalece a acção daqueles que procuram a desordem, o caos e a divisão para alavancar as suas agendas particulares e incompatíveis com qualquer ideia de bem comum.

Há algo que acontecimentos recentes, nomeadamente esta pandemia, nos demonstram, o impensável acontece, o nosso presente e futuro estão interligados, não reconhecem fronteiras, e nem todo o progresso científico e tecnológico são capazes de nos salvar. Versões mais loucas e perversas de Trump ou Bolsonaro são possibilidades. E não ignoremos as visões imperialistas, belicistas, nacionalistas e autoritárias, assentes num repugnante repúdios pelos direitos humanos universalmente consagrados, do triunvirato Putin, Erdogan e Xi JInping. E ainda a hostilidade em relação à ciência, à lógica, à racionalidade e à cultura.

Não podemos permitir que a cooperação, os valores democráticos, os direitos humanos sejam pulverizados, que os algoritmos dissimulados dos gigantes da tecnologia nos manipule e influencie o nosso comportamento. Que os ataques à verdade, a imposição de “novos valores” como competir, adquirir, mentir, controlar e matar, e a obsessão pelas celebridades e marcas se normalizem, que “o viver para o momento” alimente o sentimento de impotência e iniba uma acção dotada de propósitos.

Precisamos de uma defesa radical do ser humano, o ser humano interior, ecléctico, ético e social,  de transformar o medo em esperança, de estabelecer um horizonte comum.

Ana Paula

# 2

“Há 70 000 anos, o Homo Sapiens ainda era uma animal insignificante que fazia a sua vida num canto de África. Nos milénios que se seguiram, transformou-se no senhor do mundo inteiro e num dos flagelos do ecossistema. (…)

Avançámos das canoas para as caravelas, para barcos a vapor, para vaivéns espaciais – mas ninguém sabe para onde vamos. Estamos mais poderosos do que alguma vez estivemos, mas não fazemos a mínima ideia do que fazer com esse poder. Mas pior ainda é que os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca. (…) Estamos, assim, a espalhar o caos sobre os nossos companheiros animais e o ecossistema envolvente, em busca de pouco mais do que o nosso próprio conforto e divertimento, sem, no entanto, nos darmos por satisfeitos” (*).

Ao que o historiador Yuval Noah Harari está a apelar-nos é a um enorme esforço de jamais nos esquecermos de que somos humanos. Antes daquelas palavras escritas no posfácio, ao terminar Sapiens – História breve da Humanidade, inquiria-se: “(…) a verdadeira questão que se nos apresenta pode já não ser ‘Em que queremos transformar-nos?’, mas antes ‘O que queremos querer?’”.

Da proposta – Chegou o momento – podemos averiguar os passos em que desejamos avançar, enquanto humanos, neste colectivo de humanidade, “companheiros animais” e “ecossistema envolvente”. De contrário, estaremos a progredir numa insatisfação permanente, visível, incontestável mesmo, nas mais comezinhas coisas dos nossos quotidianos… Poderosos, com pés de barro, como um qualquer faraó, dependente dos seus apaniguados, ou ainda um general romano, escoltado por aqueles que, a todo o momento, o poderiam apunhalar.

É chegado o momento – até porque a consciência da impossibilidade de uma vivência solitária e errática já é irrecusável –, e a experiência de uma desconfiança pandémica, entre sociedades e nações, tão bem expressa na falta de confiança entre indivíduos, grupos políticos e económicos, e também culturais…

Chegou o momento…

De estabelecermos em conjunto as bases de um novo mundo…

Só em conjunto, pela interdependência de comunhão, seremos capazes de satisfazer humanamente esta urgência do(s) nosso(s) relacionamento(s) com todos os seres vivos, partilhemos estes princípios a fim de criar uma consciência global.

(*) Elsinore, Portugal, 2017

Mário