Da Água e dos Pneus: Que os une ou Divide?

Se nos perguntarem o que sabemos sobre a incidência de poluição nos mares resultante da fricção dos pneus nas estradas, talvez desconfiemos da razoabilidade da questão. Do igual modo poderemos ficar surpresos diante de alguém que, ao mostrar-nos um pneu, garanta que a base do seu fabrico foram árvores ou musgos…

Em 2014, o biólogo John Weinstein, ao acompanhar alunos de pós-graduação, na zona costeira da Carolina do Sul (EUA), suspeitou da presença de partículas de resíduos de pneus no oceano.  Os indícios provinham de microscópicas amostras, como se fossem sacos plásticos de forma tubular, de cor preta, e sem origem conhecida… O desenvolvimento desta estranha descoberta foi relatada pela National Geographic (*), na sua edição de Outubro passado, revelando que, a inspecção feita por aquele biólogo, com os seus alunos, num porto de pesca próximo do local da recolha das amostras, divulgou que a misteriosa poluição não provinha de redes de pesca, como chegaram a suspeitar, mas sim de pneus. Ou seja, da fricção resultante da passagem dos pneus de veículos pelo alcatrão de estradas envolventes…

Em Fevereiro de 2017, a THE UNIPLANET (**) já reportara a informação, Citando um membro da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN): «Descobrimos que a maioria dos microplásticos provém ou das roupas ou dos pneus. Os microplásticos estão a invadir todo o mar e a cadeia alimentar. Fechemos a torneira do plástico». E referindo um estudo daquela instituição a THE UNIPLANET revelava: «As minúsculas partículas de plástico que se soltam de produtos como as roupas sintéticas e os pneus dos automóveis representam até 30% do plástico que vai parar ao mar, todos os anos. Em alguns países, são inclusive uma fonte maior de poluição marinha do que os próprios resíduos de plástico».

Mas à interrogação de como é possível micropartículas de materiais componentes de pneus “inundarem” os mares, sobrepõe-se a notícia – benigna e promissora – de que investigadores liderados pela Universidade do Minnesota encontraram uma maneira de produzir isopreno (o ingrediente-chave da borracha sintética utilizada no fabrico de pneus) a partir de fontes naturais, como ervas, árvores e milho, em vez de combustíveis fósseis. Não é rigorosamente garantida, todavia, esta solução… Das várias ponderações há que a considerar o modelo tecnológico de extracção dos produtos naturais; entre as mais vulneráveis circunstâncias que poderão ocorrer é o facto de se cair em novos erros, como a extensão massiva de culturas ou de abate de árvores, por exemplo, para aquela finalidade. Isto, apesar de estarem em estudo, em diferentes sectores de investigação universitários e de empresas ligadas ao sector de fabrico de pneus, novas pesquisas…

E qual é a nossa quota parte de cidadania, neste processo? De momento, porque alinharmos em intervenções de limpeza de praias – como as que a STRAW PATROL(***), no Algarve, promove. Numa destas iniciativas, 14 elementos da equipa de limpeza, retirou mais de 267 kgs de resíduos.

E acima de tudo, poderemos utilizar menos vezes o nosso carro, mesmo quando chove… Será que para não se molhar o pão que vamos buscar ou quando desejamos ir até um café, teremos mesmo de accionar a ignição do automóvel? Por outro lado, temos necessidade, sempre, de conduzir a velocidades “estonteantes”? O grau de atrito causado pelo pneu pela velocidade é uma das razões de desgaste maior, levando a produzir mais micropartículas que espalham… até às ribeiras, ao ar que respiramos.

Não nos resta lamentar ou apontar dedo!

A propósito: não deixe de ver, nesta secção, o vídeo que levou a bióloga marinha, Carla Lourenço, a envolver-se na criação da STRAW PATROL, em 2016.

Consultar:

(*)https://www.natgeo.pt/meio-ambiente/2019/10/pneus-poluidor-plastico-que-passa-despercebido

(**)https://www.theuniplanet.com/2017/02/plastico-que-se-solta-de-pneus-e-roupa.html

(***)http://swell-algarve.com/2017/03/20/straw-patrol-recolhe-lixo-na-ria-formosa/

De vão-de-escada (Novembro de 2019)

Frutos da circunstância

Há cerca de uma década, os grandes produtores mundiais de frutos vermelhos descobriram no sudoeste alentejano um clima abençoado para a cultura intensiva destes frutos. Solos arenosos e água, muita água, graças ao Perímetro de Rega do Mira. E então tudo mudou. Mudou a paisagem. Mudou a demografia. Mudou o tecido social. Estufas pintaram de branco hectares e hectares de território, quase até à fronteira do mar. Atualmente, na freguesia de São Teotónio, as zonas de cultivo já rondam os 1100 hectares, com tendência expansionista. (Expresso, 12 de Dezembro de 2015) https://expresso.pt/sociedade/2015-12-12-Frutos-da-circunstancia

Odemira já mal respira sob o plástico das estufas

A ocupação do concelho por culturas intensivas está a exercer pressão, não só sobre os recursos naturais, mas também sobre as infra-estruturas, incapazes de dar resposta a tantos migrantes. (…) A pressão é crescente e o concelho não está a conseguir dar resposta à vaga de imigrantes, assim como receia as consequências deste modelo agrícola na água, ar, solo e biodiversidade. (Público, 17 de Março de 2019) https://www.publico.pt/2019/03/17/local/noticia/culturas-intensivas-vieram-agravar-realidade-ambiental-social-concelho-odemira-1864562

Eucalipto ganha terreno ao pinheiro-bravo e ao sobreiro

O eucaliptal já ocupa mais de um quarto da floresta nacional. Pinheiro-bravo perdeu 10,5% da área em dez anos. São dados do Inventário Florestal Nacional de 2015, um retrato do país que não reflecte o impacto dos incêndios de 2017, sobretudo nas áreas de pinho, onde a redução pode ser ainda maior. (…) Há uma década, o eucalipto tornou-se a principal espécie na floresta portuguesa. Agora os dados recolhidos (…) mostram que está a consolidar a sua posição – já ocupa mais de um quarto do território. Enquanto isso acontece, o pinheiro-bravo e o sobreiro, as outras duas principais espécies em Portugal, perdem terreno. (…) o país também está cada vez mais urbano e cada vez menos agrícola. (…) a área total dedicada à agricultura tem vindo a diminuir. (Público, 28 de Junho de 2019) https://www.publico.pt/2019/06/28/sociedade/noticia/eucalipto-ganha-terreno-pinheirobravo-sobreiro-1877937

Já esgotámos os recursos anuais do planeta. Agora passamos a viver a crédito

Se todos os países “gastassem” o planeta como Portugal, o limite teria sido atingido o dia 26 de Maio, 21 dias mais cedo do que no ano passado. (…) Estamos a esgotar o capital natural da Terra. A Zero refere que Portugal “é um contribuinte activo para esta situaçãoo”, uma vez que, “se todos os países tivessem a mesma pegada ecológica que o nosso país, seria necessários 2,5 planetas. (Diário de Notícias, 28 de Julho de 2019) https://www.dn.pt/vida-e-futuro/amanha-e-o-dia-em-esgotamos-os-recursos-anuais-do-planeta-e-passamos-a-viver-a-credito-11158337.html

Dois terços do país em seca severa ou extrema

Há aldeias onde a água só chega em camiões-cisterna e 29 albufeiras têm disponibilidade inferiores a 40% da sua capacidade, na maioria a sul. (Expresso, 27 de Outubro de 2019) https://expresso.pt/sociedade/2019-10-27-Dois-tercos-do-pais-em-seca-severa-ou-extrema

Migrantes em Odemira terão NET, ar condicionado e relva…nas suas casas precárias

Numa das suas últimas decisões, o anterior Governo aprovou o aumento em 1200 hectares da área destinada a estufas no Perímetro de Rega em Mira. Este alargamento irá trazer inevitavelmente um aumento da população migrante, pra a qual já hoje não há suficientes respostas habitacionais e sociais. Para tentar responder ao problema, a mesma resolução equipara, por dez anos, as instalações precárias existentes nas explorações a estruturas complementares à actividade agrícola. (Público, 3 de Novembro de 2019) https://www.publico.pt/2019/11/03/local/noticia/migrantes-sudoeste-terao-net-casas-continuarao-precarias-1892056

À Margem (Novembro de 2019)

1.

MÚSICA: Hang Massive, End of Sky

O inglês Danny Cudd e o sueco Markus Johansson juntaram-se para ampliar as possibilidades e o repertório do “disco voador” a que se dedicavam: o hang, um instrumento de percussão com esse formato, também conhecido como handpan, formando a banda Hang Massive.

2.

LIVRO:  Boochani, Behrouz (2019). Sozinho nas Montanhas. Alfragide: Casa das Letras.

Natural de Ilam (Irão), Behrouz Boochani, jornalista curdo-iraniano, foi preso em 2013 quando tentava a sua sorte – chegar à Austrália para pedir asilo. A viagem de barco entre a Indonésia e aquele país não correu como planeado e foi detido por tentar entrar sem visto. Há seis anos aguarda, juntamente com outros 600 refugiados, resposta ao pedido de asilo que fez à Austrália num centro de detenção de migrantes na ilha de Manus, na Papua Nova Guiné. Inicialmente, o jornalista e defensor dos direitos humanos foi enviado para o centro de reclusão, onde passou 5 anos, mas depois passou para um alojamento alternativo na ilha.

O principal objetivo de Sozinho nas Montanhas é que o resto do mundo saiba o que se passa nas ilhas de Manus e Nauru, «um sistema que tortura pessoas inocentes». O livro não foi escrito em papel ou num computador, mas sim com recurso a um telemóvel, através do envio de milhares de mensagens, a maioria através da aplicação Whatsapp, durante cinco anos e traduzidas a partir de Farsi.

Já em 2019, Sozinho nas Montanhas conquistou os prémios de literatura e de não-ficção no Victorian Premier’s Literary Awards, atribuídos pelo país que o mantém cativo. É a voz de uma testemunha, um ato de sobrevivência. Um relato lírico na primeira pessoa. Um grito de resistência. Um retrato vívido de cinco anos de exílio e encarceramento.

O nosso governo tudo fez para desumanizar aqueles que buscam asilo. Os seus nomes e as suas histórias são-nos escondidos. Em Nauru e na Ilha de Manus, os exilados vivem num jardim zoológico de crueldade. As suas vidas são despojadas de significado.

Todos os prisioneiros eram pessoas que haviam sido encarcerados sem que tivesse havido apresentação de queixa, condenação ou sentença. Trata-se de um destino particularmente kafkiano que gera muitas vezes o mais cruel dos efeitos – que é completamente pretendido pelos carcereiros australianos – o de derrotar a esperança.

E foi assim que o grito por liberdade se transmutou em carne carbonizada, quando Omid Masoulami, de vinte e três anos, se imolou como forma de protesto. Ou quando Hodan Yasin, de vinte e um anos, gritava enquanto ela se autoincendiava.

Foi nisto que nós, a Austrália, nos tornamos.

Em ignorar as súplicas de uma mulher em Nauru que era violada.

Numa rapariga que coseu os lábios.

Numa criança refugiada que lhes pousou um coração nas mãos sem que soubesse porquê. ” Richard Flanagan, Prefácio, Sozinho nas Montanhas, páginas 9 e 10).

Para saber mais:

“Jornalista que denunciou as condições de refugiados em Manus está livre na Nova Zelândia”: https://www.publico.pt/2019/11/14/mundo/noticia/boochani-autor-livro-enviado-whatsapp-livre-nova-zelandia-1893790

3.

DOCUMENTÁRIO: Disobedience (2016, 41 minutos, produzido pela organização activista 350. Org.)

Disobedience lembra-nos de que o planeta está sob ataque. A mudança climática é real e também depende da iniciativa cidadã reverter os seus efeitos adversos.

De acordo com o documentário, o conhecido “acordo histórico de Paris” não será suficiente para travar o pior, uma vez que a temperatura global deverá aumentar mais que os previstos 2 º C.

O documentário apresenta um grupo diversificado de activistas, em partes distintas do globo, que assumiram a luta por um modo de vida melhor para as suas famílias, comunidades e planeta.

4.

INICIATIVA – Associação MilVoz

Associação de Protecção e Conservação da Natureza, criada em Maio de 2019, por cidadãos, para dar voz ao património natural da região de Coimbra. A 16 de Maio a associação lançou a campanha de croudfunding “Ajuda a criar a primeira Reserva Natural MilVoz” para angariação de fundos.

Alcançado o seu objectivo, a Associação Milvoz adquiriu cerca de um hectare de floresta de carvalhos e castanheiros com a finalidade de criar uma reserva natural local. Este refúgio de biodiversidade situa-se entre as localidades de Almalaguês e Rio de Galinhas, próximo da cidade de Coimbra.

O objectivo passa por gerir o espaço em prol da conservação e biodiversidade, envolvendo a população.

A Reserva Natural de Coimbra será apenas a primeira de uma rede de mini-reservas que a associação MilVoz pretende implementar.

Reserva Natural Senhora da Alegria

Para saber mais:

https://www.publico.pt/2019/11/13/local/noticia/milvoz-criar-reserva-natural-arredores-coimbra-1893640

Vandana Shiva

Vandana Shiva (1952, Índia), activista ambiental, e uma das mais prestigiadas ecologistas, feministas e filósofa da actualidade. Envolvida na luta contra o neoliberalismo e defensora dos direitos humanos e ambientais, é figura de destaque no movimento antiglobalização. Reivindica mudanças que travem as mudanças climáticas, a desigualdade, a injustiça, as guerras e a fome. Reconhecida internacionalmente como figura de destaque no movimento antiglobalização. A revista Times considerou-a uma heroína e a Forbes colocou-a na lista das mulheres mais poderosas do mundo.

É autora de inúmeros livros, entre os quais, Making Peace with the EarthEarth DemocracySoil Not OilStaying AliveStolen HarvestWater Wars e Globalization’s New Wars. Apenas o livro A Violência da Revolução Verde foi editado em Portugal.

Recebeu inúmeros prémios internacionais, entre eles Right Livelihood Award, considerado o Prémio Nobel alternativo.

Fundou a organização não governamental Navdanya, que promove a biodiversidade de sementes, a agricultura orgânica e os direitos dos agricultores: http://www.navdanya.org/site/

Entrevista a Vandama Shiva

“A incapacidade de enxergar a diversidade é a monocultura da mente, uma ferramenta de poder para controlar a vida”.

“Todos os seres vivos têm um direito inerente à existência e essa deve ser a razão suprema para não permitir que ocorra a extinção de uma espécie”.

“A biodemocracia envolve o reconhecimento do valor intrínseco de todos os seres vivos … e dos direitos originais de comunidades que coevoluiram com a biodiversidade local”. (Vandana Shiva, Monocultura da Mente, 2002)

Livro: Shiva, Vandana (2015). A Violência da Revolução Verde. Edições Mahatma

SINOPSE

Vandana Shiva analisa o impacto da primeira Revolução Verde na Índia. Demonstra como a promessa de uma “solução rápida” para obter grandes ganhos de produção marginalizou a busca séria de uma estratégia agrícola alternativa assente no respeito pela sabedoria ambiental dos sistemas campesinos e a construção de uma agricultura igualitária, orientada para as necessidades, coerente com as tradições políticas endógenas, e baseadas na aldeia, do Gandhismo.

Documenta a destruição da diversidade genética e da fertilidade do solo que se verificou e, de forma muito original, mostra como a Revolução Verde também contribuiu para os graves conflitos sociais e políticos que agora dilaceram o Punjab. A autora apresenta uma crítica sofisticada da posição epistemológica privilegiada que a ciência moderna alcançou e através da qual aspira a fornecer as soluções tecnológicas para os problemas sociais e políticos, ao mesmo tempo que recusa qualquer responsabilidade pelos novos problemas que são criados pela sua acção. Lança também um olhar sobre o futuro para analisar um novo projecto que aplica a mais recente tecnologia da Revolução dos Genes na Índia e alerta para os danos ambientais e sociais que dele podem decorrer.

Excertos  da Violência da Revolução Verde

A Revolução Verde foi baseada no pressuposto de que a tecnologia é um substituto superior para a natureza e, como tal, um meio para produzir crescimento ilimitado, não condicionado pelos limites naturais. Todavia, o pressuposto da natureza como fonte de escassez e da tecnologia como fonte de abundância leva à criação de tecnologias que criam novas formas de escassez na natureza através da destruição ecológica. A redução na disponibilidade de terra fértil e na diversidade genética das colheitas que resultou das práticas da Revolução Verde indica que, a nível ecológico, a Revolução Verde produziu escassez, não-abundância (pág. 21-22).

As sementes da Revolução Verde foram concebidas para ultrapassar os limites que as sementes indígenas colocavam à agricultura quimicamente intensiva. As novas sementes tornaram-se assim centrais para quebrar os limites e os ciclos da natureza. As sementes ‘milagrosas’ estavam assim no centro da ciência da ‘Revolução Verde’ (pág. 33).

A diversidade de cultivos e de variedades da agricultura indígena foi substituída por monoculturas e uma base genética estreita. O foco eram os mercados internacionais de cereais, e a estratégia passava por eliminar os cultivos mistos e rotativos, bem como a diversidade de variedades, através da simplicidade varietal. Ao mesmo tempo que reduziam a diversidade, as novas variedades aumentavam o recurso a água e a aportes químicos, como pesticidas e adubos (pág. 44).

A estratégia da Revolução Verde pretendia transcender a escassez e criar abundância. Contudo, colocava novas exigências sobre recursos renováveis escassos e gerava novas exigências de recursos não renováveis. A tecnologia da Revolução Verde requer elevados investimentos em adubos, pesticidas, sementes, água e energia. A agricultura intensiva gerou uma nova destruição ecológica e criou novos tipos de escassez e de vulnerabilidade, e novos níveis de ineficiência no uso de recursos ao invés de transcender os limites colocados pela natureza do solo e da água, a Revolução Verde introduziu novos limites à agricultura, ao desperdiçar e destruir recursos hídricos e o solo, bem como a diversidade dos solos (pág. 44).

Testemunhos de Vandana Shiva

Democracia

Monocultura da Vida

Monocultura da Mente

“Temos de destruir o mito de que a tecnologia é uma religião que não pode ser questionada”.

https://www.publico.pt/2019/11/13/ciencia/entrevista/destruir-mito-tecnologia-religiao-nao-questionada-1893488

Editorial (Junho 2019)

Há quase meio século tinha início, a 5 de Junho, a 1ª Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente.

Naquele ano de 1972, a ONU já assumia como desígnio a necessidade de «defender e melhorar o meio ambiente para as atuais e futuras gerações», enquanto «meta fundamental para a humanidade.» Inaudita percepção tiveram, então, os representantes e especialistas das nações, reunidos em Estocolmo…

E para celebrar aquele encontro, tão pertinente como atento, o Ambiente é a temática que integra as diversas páginas desta edição do Dissonâncias. Não se deseja colocar a “coisa negra”, como parece agradar a muitos militantes do infortúnio, nem tão pouco parece sensato dar vez a quem proclama maravilhas, sobre o actual momento ambiental. A sensatez solicita razão e ética; no fundo, seriedade quando se fala de uma «meta fundamental» (utilizando a expressão da conferência de Estocolmo) para a continuidade da Humanidade.

Quando tratamos de preservar a nossa estância na Terra, não podemos renegar o respeito por toda a Natureza, que nos acolheu, a todos e cada um de nós, de modo prazenteiro e gratuito. Tudo não passará de uma ilusória aventura, quando nos deixarmos embalar pelo canto de sereia que pretende afirmar tempos de desequilíbrio no comportamento do Planeta como “naturais”.

«Inspirar e guiar os povos do mundo para a preservação e a melhoria do ambiente humano», sábia decisão assumida naquele dia 5 de Junho de 1972, e que hoje se actualiza num relatório, aprovado dia 4 de Maio passado, em Paris, pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos, estrutura científica da ONU que nos coloca de sobreaviso: um milhão de espécies animais e vegetais do Planeta correm perigo iminente de desaparecimento…

Consciencializar, maturar e agir. Poderíamos enunciar assim as propostas que encontramos nas diversas secções do Dissonâncias, e que, por isso mesmo, se apresenta na abertura com o vídeo Floresta, a solução esquecida. Talvez já o tenhamos visto; todavia, a proposta é que ele nos sensibilize para o programa desta edição: cuidar, cuidar e cuidar do Ambiente.

As notas apresentadas em Simplicidade Voluntária, ou ainda a explicitação oferecida na secção Terceiro Planeta, revelam-se auxílios para assumir um compromisso com a casa que nos acolhe. E enquanto os apontamentos em De vão de escada nos conduzem a um olhar crítico sobre o panorama inútil dos atentados ao Ambiente, também a reflexão sobre o que declaram, em matéria ecológica, os manifestos eleitorais dos partidos políticos portugueses que conseguiram assento no Parlamento Europeu, a 26 de Maio passado, poderá avaliar o nível de compromisso da Política à Portuguesa

Outro compromisso é o que nos propõe a TROCA – plataforma por um comércio internacional justo. Ao dar-nos conta dos «privilégios para as empresas transnacionais que lhes permitem contornar os sistemas de justiça nacionais e a Democracia», mobiliza-nos a tomar conhecimento do absurdo que é a legislação favorável à impunidade daquelas empresas «quando existem violações dos Direitos Humanos (incluindo destruição ambiental).» É também a agir… em favor de uma vivência salutar.

Ponta do Iceberg (Junho 2019)

«As políticas [de defesa do Ambiente] adotadas e implementadas pela UE [União Europeia] têm atualmente um impacto substancialmente mais destrutivo que regenerador.»

O partido político português que se atreveu à denúncia, no manifesto eleitoral para as Europeias 2019, foi precisamente o que conseguiu colocar o seu primeiro eurodeputado em Bruxelas. O Partido Pessoas, Animais e Natureza (PAN) irá agora ter a possibilidade de avançar com algumas das suas propostas mais ousadas, feitas durante a campanha eleitoral, como a da inversão do facto de «o investimento de bancos na manutenção», classificado pelo PANde sistema «produtivista, intensivo e massificado» que, tal como a produção petrolífera e outras actividades económicas, favorece «a expansão da poluição atmosférica, terrestre e marinha, tal como a redução ou mesmo extinção de espécies vegetais e animais são alguns dos exemplos de como caminhamos para a sexta extinção em massa».

Observar as propostas sobre o Ambiente, dos partidos portugueses que obtiveram assento no Parlamento Europeu (PE), é genericamente desincentivador por se apresentarem fluidas no que respeita ao concrecto, ao que toca em absoluto no quotidiano… Tomemos em atenção o que sugere o Partido Socialista (PS) – o partido que obteve o maior número de lugares no PE, nove eurodeputados.

«O Novo Contrato Social de que a Europa precisa deve envolver, também, um renovado compromisso e uma reforçada ambição em termos de inovação e sustentabilidade para ganhar os desafios do futuro.» Assim inicia o manifesto eleitoral do PS, no que respeita a «uma nova agenda para a inovação e a sustentabilidade». Não se excedendo em compromissos, os socialistas portugueses oferece como prognóstico «uma grande aposta dos investimentos europeus na investigação e desenvolvimento, na modernização tecnológica e na qualificação dos recursos humanos».

Da parte de um partido que é Governo há quase uma legislatura, o seu manifesto eleitoral não ultrapassa o anúncio de conceptualizações, por um lado já gastas por serem repetidas e, por outro, por não terem o carácter de desígnios concrectos a colocar no hemiciclo da Europa. Anote-se, por exemplo, que quanto aos conhecidos Acordos de Paris, (ainda sem cumprimento legislativo por parte da Europa), o PS (re)afirma o que, inúmeras vezes já se escutou: a necessidade de honrar os compromissos assumidos naquele encontro, na capital francesa em 2015, realizado no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (CQNUMC), e que aponta medidas de redução de emissão de gases estufa a partir de 2020. Como sabemos, aquelas medidas encontram-se em total incumprimento, por parte dos países-membros da EU.

E se entre os parcos itens do manifesto socialista vislumbramos, por exemplo, um que chama mais a atenção, pela sua urgência de actualidade – «Reforçar a capacidade de resposta europeia às catástrofes naturais e ambientais, incluindo por via de um verdadeiro sistema europeu de proteção civil» -, logo se conclui que não concrectiza o que se entende por «capacidade de resposta», nem mesmo de que se trata quando se refere «um verdadeiro sistema europeu de protecção civil…

«Há um conjunto de áreas onde Portugal pode perfeitamente liderar a Economia do Mar a nível europeu e internacional e a médio prazo. É o caso da construção de infraestruturas offshore, seja para a aquacultura em mar aberto, seja para a utilização no aproveitamento de energias renováveis, ou a criação de centros de desenvolvimento tecnológico.»

O desígnio pertence ao partido português que, depois do 25 de Abril, abriu a primeira janela de possibilidade à integração do país na EU, então ainda designada por Comunidade Económica Europeia. A inovação de 1974 do então Centro Democrático Social (agora designado CDS/PP), não encontra respaldo na proposta ambiental feita para as Europeias deste ano. O CDS/PP, privilegiando «o Mar e a ‘Economia Azul’» como ideia central, começa por integrar no seu manifesto uma medida controversa em diversos ambientes políticos da Europa: as empresas offshores, enquanto motores de desenvolvimento económico e, mesmo, social.

A proposta, colocada no sítio de internet do partido, apresenta como pano fundo estratégico a questão financeira e económica, ao nível empresarial, enquanto paradigma da resolução dos problemas ao nível do Ambiente, considerando mesmo que «o conhecimento científico e tecnológico é central para o incremento da Economia do Mar». E se de facto não se pode negar a afirmativa, também não é menos certo que integrar a «Economia Azul», a partir de um único patamar – o sector financeiro e empresarial – é desligar as questões ambientais de uma questão soberana: a responsabilidade do(s) Estado(s) no que se refere ao bem-estar social e ao desenvolvimento saudável das populações, adstrito à fruição da Natureza.

Mesmo concordando com Yvon Slingenberg, a coordenadora de relações internacionais na Direcção-Geral de Acção Climática da Comissão Europeia, quando ela afirmou a jornalistas (no âmbito da Conferência Europeia de Adaptação às Alterações Climáticas, que decorreu em Lisboa entre 28 e 30 deste mês) que o sector empresarial se revela preponderante para o cumprimento da meta de impedir a subida das temperaturas mais de 1,5 graus, até 2030, como decorre dos compromissos dos países com a ONU, há ainda a considerar que a componente política, ao nível da investigação científica e de desígnio legislativo e estrutural, não pode ser retirada aos Governos a posição, e responsabilidade, de “pivots” das mudanças necessárias, e urgentes, a nível ambiental…

Tanto mais se torna notória uma adequada atitude de boa governança, como anota o Bloco de Esquerda (BE) nas suas propostas eleitorais para as Europeias 2019, quando reconhece que «a coordenação de políticas europeias, indispensável à concretização dos compromissos a que a UE se obrigou, é praticamente inexistente.» O partido, que conseguiu eleger mais um eurodeputado (ficando com dois), não deixa mesmo de salientar uma insuficiente regulação, por parte da UE nesta matéria, e que se transforma «num benefício aos infratores, ou seja, aos Estados menos empenhados.». Ou seja, assumimos nós, aos Estados mais permissivos para com o sector empresarial.

Aliás, nas suas propostas eleitorais no que toca ao Ambiente, o BE privilegia sublinhar a existência de «medidas que atacam os rendimentos das famílias», dando o exemplo concrecto de França, onde foi aplicado um “imposto verde”, «colocando todo o ónus da mudança nos consumidores», enquanto «nada é exigido às empresas mais poluentes».

Denunciando que a UE continua «a financiar projetos de investimento em energias fósseis, nomeadamente os 90 projectos de infraestruturas de gás, portuárias e de transporte [sem todavia se identificarem] que foram recentemente considerados Projetos de Interesse Comunitário», o BE reconhece neste tipo de decisões «a falta de compromisso com a transição energética», por parte das instituições comunitárias.

Pelo contrário, o Partido Social Democrata (PSD) alinha numa confiança nas orientações e soluções da UE para o Ambiente. «O PSD apoia incondicionalmente o papel liderante da UE na agenda de combate às mudanças climáticas». Assim o confirma a intencionalidade do negrito colocado nesta frase, e que surge logo do primeiro parágrafo do manifesto eleitoral do partido.

Os social-democratas são ainda os únicos a explicitar a sua aproximação aos anseios dos movimentos juvenis, ao declarar-se unido «umbilicalmente à luta das gerações jovens neste domínio [as alterações climáticas]». São eles igualmente quem desenvolve no seu programa eleitoral das Europeias 2019 um maior número de itens, no que respeita ao Ambiente, defendendo, por exemplo, que «a UE deve liderar a transição da economia linear para a economia cir­cular e hipocarbónica», propondo mesmo a criação de «projetos piloto na área da econo­mia circular, em sectores como a construção civil, a metalomecânica ou a agricultura». Sobre «o desenvolvimento de regiões de carbono neutro» propõe-se o encaminhamento de «fundos europeus estruturais e de investimento para soluções sustentáveis».

O PSD apresenta ainda razões para «uma aposta na silvicultura e na valorização e ordenamento das nossas florestas», capaz de garantir «a sus­tentabilidade ambiental e o combate aos incêndios». E a propósito aponta o manifesto eleitoral social-democrata: «Deve ser realçado o papel de ‘sumidouro de CO2’, combinando a biomassa com tecnologias de ponta, como é o caso do CCU (Carbon Storage and Utilisation), por forma a desenvolver siste­mas com balanço negativo de CO2.»

Por seu turno, o Partido Comunista Português (PCP) – o único partido que sustenta uma coligação com um outro, oficialmente designado de ecologista, Os Verdes – não vai muito além de uma dezenas de linhas no «apelo comum» com a outra formação política. Titulado «Por uma Europa de progresso económico e social e ecologicamente sustentável», o documento não se agiganta em muitas considerações sobre a problemática ambiental, mantendo um tom retórico de desejos, como por exemplo: que sejam tomadas «medidas radicais contra as alterações climáticas, ao mesmo tempo que assegura a justiça social», ou ainda que se defenda «o carácter público dos sectores estratégicos de cada país e apoie as pequenas e médias empresas» …

Parecendo insuficientemente incisivas e, ainda, recuadas no que concerne à profundidade que o tema revela, diante da realidade que todo o Planeta, e naturalmente toda Humanidade, os partidos portugueses que obtiveram lugares no Parlamento Europeu, no passado dia 26, não se destacam pela atitude de convicção, no que diz respeito ao Ambiente.

Merece referência um aviso de Yvon Slingenberg, ainda no âmbito da agora realizada, em Lisboa, Conferência Europeia de Adaptação às Alterações Climáticas: «É verdade que estando [a UE] no pelotão da frente, os compromissos que assumimos hoje não são suficientes para impedir as temperaturas de subirem mais de 1,5ºC».

Os constantes desvios do clima e as insuficiências reiteradas que a Natureza, assim o demonstram… retenha-se o nosso olhar, por exemplo, no avisado conteúdo do livro de Viriato Soromenho-Marques, sobre uma UE «mergulhada numa perigosa crise existencial, que se arrasta demasiado tempo.» Ver na secção À MARGEM recensão a DEPOIS DA QUEDA- A União Europeia entre o reerguer e a fragmentação.

Simplicidade Voluntária

A Terra é um sistema único e estreitamente interligado. Tanto a ecologia natural da Terra como a ecologia social das relações humanas estão em risco profundo.(Duane Elgin)

“A simplicidade é a derradeira sofisticação”. (Leonardo da Vinci)

“Optamos por viver simplesmente para que os outros possam simplesmente viver”. (Gandhi)

O direito à vida, contemplado no artigo 3.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, encontra-se comprometido face às alterações climáticas, à degradação ambiental, à destruição das florestas, à finitude dos recursos naturais, à extinção de espécies, à falta de água, às colheitas fracassadas,  Foi excedida a capacidade da Terra para sustentar os actuais níveis de consumo. Acrescente-se o crescimento demográfico acelerado, segundo as projecções da ONU em 2050 irá atingir-se um máximo de 9,6 mil milhões de pessoas (actualmente já somos 7,2 mil milhões) e a consequente pressão que isso terá sobre os recursos naturais, a biodiversidade, a poluição, o aquecimento global. Se o quadro actual é crítico, tornar-se-á rapidamente insustentável. (https://www.unric.org/pt/actualidade/31160-relatorio-das-nacoes-unidas-estimaque-a-populacao-mundial-alcance-os-96-mil-milhoes-em-2050-)

A Comissão Europeia estabelece como causas das alterações climáticas “o impacto das actividades humanas, nomeadamente a queima de combustíveis fósseis, o abate da floresta tropical e a pecuária” (https://ec.europa.eu/clima/change/causes_pt), alertando que todas as regiões do globo estão a ser afectadas por essas alterações: “as calotas polares estão a derreter e o nível do mar está a subir. Em algumas regiões, os fenómenos meteorológicos extremos estão a tornar-se cada vez mais comuns e a pluviosidade está a aumentar, enquanto, noutras, as vagas de calor e as secas estão a agravar-se” (https://ec.europa.eu/clima/change/consequences_pt). E, de acordo com as previsões, esses impactos irão intensificar-se nas próximas décadas. A Europa, em concreto, tem vindo a registar com maior frequência vagas de calor, incêndios florestais e secas, com os inerentes efeitos na saúde humana e com pesados encargos para a sociedade, a economia, a fauna e flora.

Em consonância com o artigo 1.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, como seres dotados de razão e de consciência, devemos agir uns para com os outros em espírito de fraternidade, significa isto, que cada um de nós é convocado a introduzir no seu quotidiano as mudanças que permitam um modo de vida sustentável, com sentido e viável, para nós, para as gerações vindouras e para todas as outras formas de vida. Mas atenção, precisamos mais do que as mudanças cosméticas exploradas e anunciadas pela indústria verde. O nosso estilo de vida precisa de ser reavaliado, são necessárias mudanças profundas, desafiadoras e criativas. E o tempo urge.

O escritor norte-americano, Duane Elgin (2010:33-35)  propõe um caminho: a simplicidade voluntária, uma escolha feita de modo livre e consciente, uma revolução sem líderes, pois cada pessoa assume o controlo da sua vida. A simplicidade significa: (1) “assumir o controlo de vidas demasiado atarefadas, stressadas e fragmentadas” e concentrar-se no essencial; (2) “optar por estilos de vida que tocam mais levemente na Terra e reduzem o nosso impacto ecológico” e aceitar “o facto de os reinos não humanos das plantas e dos animais também possuírem dignidade e direitos”; (3) “colocar o bem-estar da família à frente do materialismo e da aquisição de coisas” bem como “a qualidade e integridade das relações com os outros”; (4) “sentir uma tal proximidade com os outros” que suscite “a vontade de partilhar um caminho de cooperação e justiça que busca um futuro de desenvolvimento mutuamente assegurado para todos”; (5) “abordar a vida como uma meditação e cultivar a experiência de ligação directa com tudo o que existe. (…) A simplicidade da alma está mais preocupada com o saborear consciente da vida e das suas riquezas sem adornos do que com padrões especiais da vida material”; (6) reduzir “os gastos em tudo o que não serve verdadeiramente as nossas vidas e praticando uma gestão habilidosa das finanças pessoais, podemos alcançar maior independência financeira”. (…) Viver com menos também reduz o impacto do nosso consumo na Terra e liberta recursos para outros”.

A simplicidade é uma via para a sustentabilidade. Recorde-se que “o carácter de uma sociedade é o resultado cumulativo de incontáveis pequenas acções do dia-a-dia de milhões de pessoas. As mudanças pequenas que isoladamente parecem pouco importantes ganham um significado transformador quando são adoptadas por toda a sociedade” (Elgin, 2010: 46).

Bibliografia

Elgin, Duane (2010). Simplicidade Voluntária. Para um estilo de vida simples por fora e rico por dentro. Alfragide: Estrela Polar.

Website: https://duaneelgin.com/

Documentário: Do Mito da Abundância à Simplicidade Voluntária (52 min).

Estudos, números, e… conclusões: transformar as nossas acções, depois do “relatório de 6 de Maio”.

O relatório de 6 de Maio da ONU (ver no final do texto) expõe a urgência da protecção da Natureza e apela a transformações locais a globais para darmos, à Terra, a oportunidade de se (re)transformar, depois de décadas de acção humana no Ambiente de forma desmedida e inconsequente.

Porque é que este relatório é tão importante? Por duas razões principais: primeiro, porque as conclusões são muito claras e, segundo, porque as mesmas advêm de um número alargado de estudos robustos, isto é, que mostram os mesmos resultados usando técnicas e perspectivas diferentes, e elaborados por muitos cientistas  de áreas científicas distintas.

A PRINCIPAL CONCLUSÃO DO RELATÓRIO É ESTA:

Há cerca de 1 milhão de espécies em perigo de extinção, sendo este perigo eminente, para a maioria delas, nas próximas décadas.

Porque é que o que acontece aos outros (as espécies em causa), tem um impacto em nós? Para entendermos este impacto é importante percebermos um conceito fundamental sobre a vida na perspectiva biológica: todos os seres vivos estão interligados, como que numa rede sustentada pelas mesmas matérias, num equilíbrio de interdependência tal que é capaz de suportar todas a vida na Terra como a conhecemos.

Imaginemos uma teia de aranha, é frágil, mas por estar sustentada por muitos e incontáveis pontos e traços, torna-se segura e robusta.  E que acontece quando alguns daqueles pontos e traços começam a desaparecer? A teia começa por perder o equilíbrio, tomba, até que pode cair se a aranha não for rápida o suficiente a repará-la. Neste Dia Mundial do Ambiente, porque não fazermos uma reflexão sobre esta interligação, (nem sempre observável)?

Outras conclusões importantes do relatório da ONU, em síntese:

  • O declínio da biodiversidade e dos ecossistemas terá consequências no progresso económico-social (pobreza, fome, saúde, e outros) de cerca de 80 por cento da população humana. Isto mostra directamente qual o impacto da diminuição da biodiversidade na sociedade, em nós humanos, na nossa casa.
  • As perdas em ecossistemas intactos são mais evidentes em zonas tropicais, onde os níveis de biodiversidade mostram-se os mais altos do planeta, como por exemplo, nos recifes de corais que, embora só ocupem cerca de 1 por cento da Terra são os ecossistemas que, em proporção, carregam mais biodiversidade no mundo. Pode-se pensar em recifes de corais, como a maternidade ou o berçário da Terra.
  • As directivas actuais teriam de ser inovadoras a nível económico e político-social para chegarmos aos objectivos de sustentabilidade até 2030.

A boa notícia é que o relatório propõe acções e caminhos para atingirmos realmente os objectivos de sustentabilidade, incluindo as dos sectores da agricultura, dos sistemas marinhos e florestais, assim como o das áreas urbanas e de energia. Tudo isto tendo como base a conservação da biodiversidade através da gestão de recursos hídricos e costeiros.

Há mais pontos importantes e expostos com muita clareza no relatório. E essa é mais uma razão pela qual este documento é tão importante: consegue expor de forma simples, clara e ilustrativa uma série de conceitos e problemáticas complexas, podendo assim a mensagem chegar a mais pessoas. Na verdade, todos temos em mãos a capacidade de mudar e de transformar do que tanto se fala neste relatório, que por sua vez foi preparado por mãos tão humanas como as de qualquer um de nós.

A Organização das Nações Unidas – através da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos –, aprovou, no dia 6 de Maio passado, um relatório sobre a actual situação de conservação da Natureza. Resultado de um inédito estudo realizado, nos últimos três anos, por 145 investigadores de 50 países.

Avaliando as mudanças nas últimas cinco décadas, oferece ainda vários cenários possíveis para as próximas décadas, diante de um facto comprovado que aponta para a extinção de um milhão de espécies animais e vegetais, em poucas décadas…

Consultar:

https://news.un.org/pt/story/2019/05/1670971